Espaço do atleta: relato de Luiza Fellippa Marques na Maratona de Paris

Você é protagonista da sua própria história! Não basta só sonhar que as coisas acontecem como em um passe de mágica! Você tem que construir! É o esforço de cada dia que te levará ao sucesso, e, se fracassar, levante e se torne ainda mais forte, queira fazer ainda melhor e com mais garra!

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A cara da vitória. Luiza  beija a medalha da Maratona de Paris e comemora a realização do sonho de fazer os 42km abaixo de 3h30m00s. Arquivo pessoal

Isso define essa minha última maratona! Alguns anos atrás, na Maratona de Porto Alegre (onde meu pai e muitas amigas foram torcer por mim), quebrei feio e tive a pior experiência em prova da minha vida! Tive cãibras dos 25km aos 42km, um sofrimento horroroso, onde vi meu sonho de sub 3h30m00s ir pelo ralo após tantos treinos e dedicação! Algum tempo depois, parti para outra tentativa de bater meu recorde, agora na maratona de Amsterdã. Estava mais treinada ainda, mas 45 dias antes tive uma contratura na panturrilha, que me prejudicou bastante nos treinos, mas mesmo assim acreditava e queria tentar ir bem na prova. Rumo ao sub 3h30m00s e, novamente, quebrei.

Como suportar outra frustração?! Isso quebra o nosso psicológico. Então decidi que era hora de dar uma pausa nessa busca incessante por tempo. Fui para o trail, onde você não pode se basear em pace. Continuei buscando o meu melhor, mas sempre me divertindo e correndo em locais com paisagens deslumbrantes, que só quem faz esse tipo de provas ou treinos por trilhas e montanhas acaba conhecendo. Correr pela natureza te energiza, é demais.

Após dois anos fazendo somente provas trail e tendo bons resultados chegou a hora de encarar o asfalto novamente.  Me inscrevi na Maratona de Paris (há um ano) e logo depois descobri uma lesão no quadril, no osso (edema no colo femoral) de tanto impacto. Se eu não parasse de correr urgentemente, eu provavelmente teria que fazer uma cirurgia para colocar pino no quadril no local. Só podia ser um pesadelo. Parei tudo por quase quatro meses. Não podia fazer absolutamente nada, nem caminhar por dois quarteirões. Foi desesperador, mas a gente sempre sobrevive.

Me recuperei e voltei a correr em setembro de 2015, fazer 3 ou 4km já era motivo de alegria. Eu tinha 6 meses e pouco para deixar de ser sedentária e treinar para uma maratona onde queria bater meu recorde. Não perdi as esperanças. A musculação virou minha melhor amiga (antes, por falta de tempo, acabava não fazendo) e tinha que estar bem leve também para ter menos risco de lesão (menor sobrecarga) e me ajudaria a correr mais rápido.  Quando decidi encarar novamente a tentativa de me superar, resolvi dar 1.000% para isso e tudo que não fiz ou poderia ter feito melhor em toda a preparação das últimas experiências, eu faria dessa vez.

Comecei a malhar (achei tempo para isso) e fazer dieta de verdade (parar de comer toneladas de doces que tanto amava) em nome do objetivo (fazer uma maratona sub 3h30m00s). Isso pra mim foi o “pulo do gato”. Estar mais leve para correr foi fantástico. Mmeu pace baixou automaticamente sem eu treinar mais para isso! E o resultado da musculação, inacreditável. Minhas pernas não ficavam mais destruídas nos treinos de tiros e longão, estava forte e resistente para “aguentar o tranco” sem ter dores em todos os lugares. Sem falar em estar recuperada de qualquer treino muito mais rápida, sem aquelas dores musculares horrorosas.

Bom, 6 meses se passaram e cada vez eu estava mais perto do meu sonho: correr forte a Maratona de Paris. Um mês antes da prova já estava querendo que o grande dia chegasse logo, pois já estava bem cansada de me manter na dedicação máxima. Mas não dava para desanimar assim tão perto da prova. Aí a força e apoio das pessoas que gostam de você fazem a diferença.

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Os equipamentos de Luiza para a Maratona de Paris. Arquivo pessoal

Uma semana antes da prova… adivinhem… caí de bicicleta, tive conjuntivite, machuquei o tendão calcâneo (de Aquiles). Ele, que nunca tinha doído, resolveu doer após o primeiro dia de passeio intenso por Paris. Aí não tem como não surtar!!! Medo, tensão, pavor, ansiedade, liga desesperada para minha mãe, amigos e fisioterapeuta. E se afunda nos doces gostosos franceses e na Nutella. É, maratona com muita emoção. Achavam que eu estava só curtindo Paris? Tive que fazer repouso, passeava de leve de manhã e à tarde ficava repousando (tédio total). Tomei anti inflamatório, fiquei colocando gelo cinco vezes  por dia e já estava achando que só milagre faria essa tendinite ir embora e eu conseguiria correr os 42Km forte.

A minha vontade era de passar esse “filme” logo para a parte final. Socorroooooo!!! Com todos esses cuidados, a dor para caminhar diminuiu dois dias antes da prova. Era hora de fortalecer a cabeça novamente. Fui com a cabeça blindada para a prova e que nada iria tirar essa conquista que eu sonhava e batalhava a tanto tempo. Corri com as pernas um pouco cansadas, pois mesmo repousando em alguns momentos, acabávamos passeando e andando pela cidade, subindo muitas escadarias do metrô e do apartamento,  no quinto andar, sem elevador que alugamos (aprendizado: nunca faça isso quando for fazer maratona), mas deu para manter o pace. Acho que ter engordado 1kg antes da prova também pesou, literalmente! (sorry, nutri Rafael Brasília, mandei mal!)

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A alegria de Luiza no km 41 da Maratona de Paris. Arquivo pessoal

A largada da maratona aconteceu por ondas.  Larguei no grupo de 3h30m. Depois de muitos dias frios e chuvosos, amanheceu um dia lindo e menos frio, uma bênção. Havia água a cada 5Km em garrafinhas. Neste momento ficava um pouco confuso, pois os postos de hidratação eram somente de um lado. A prova é cheia como em outra maratonas (Nova Iorque, Chicago, Berlim e Amsterdã), mas mesmo tendo que ficar ultrapassando pessoas a prova toda, dá para manter um ritmo bom para quem quer ir para tempo e sim, essa maratona é plana. As inclinações curtas que têm são mínimas e não dá para levar em consideração e dizer que a prova não é plana.

Só comecei a me sentir bem na prova no km 17. Aí foi só alegria! Curti muito a prova, a animação da torcida gritando seu nome (que está no número de peito) e as bandas ao longo do percurso te empurram para a linha de chegada. Eu era a corredora mais animada da maratona, incentivava todos brasileiros que encontrava, quase dançava (com os braços) ao cruzar pelas bandas, batia minha mão na mãozinha das crianças. Isso me dava energia também. No km 36 e 37 bateu um cansaço maior e ameaças de cãibras nas panturrilhas começaram a vir. O pace deu uma subida, mas faltava tão pouco para acabar tudo que me obriguei (nessa hora a cabeça que manda) a correr mais rápido.

Doeu e foi sofrido! Não terminei inteira. Usei todas as minhas forças para me manter no pace e fechar a prova em 3h27m52s conforme o planejado. Mas mesmo assim, quanto mais perto da linha de chegada eu estava, mais eu sorria, pois estava vendo meu sonho se aproximar da realidade. Era questão de minutos, E foi lindo. Chorei, pulei de alegria, tive cãibras quando fui pegar a medalha e conquistei o meu grande objetivo: me superar e vencer os fantasmas do medo e das frustrações das maratonas mal sucedidas do passado.”

Luiza Fellipa Marques

2 comentários Adicione o seu

  1. Bruna Ribeiro disse:

    Como uma pessoa de repouso a semana inteira, tentando expulsar um resfriado 3 dias antes do NWVT, ler esse texto foi fundamental!
    Parabéns pela conquista, Coach!! Arrasou!

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  2. Karina B. disse:

    Lega, Felipa!
    Parabéns!

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