Espaço do atleta: relato de Rafael Sodré, vice-campeão dos 70km da Patagônia Run

“Fiz como manda o figurino. Me recuperei de lesão,  treinei muito e cheguei com quatro dias antes da prova em San Martin de Los Andes, na Argentina. Encaixei três bons treinos de uma hora cada por aqui.

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Rafael Sodré com o troféu de vice-campeão dos 70km da Patagônia Run. Arquivo pessoal

Mas vamos ao que interessa. A largada dos 70km foi às 6h de sábado. Acordei às 4h. O hotel antecipou o café da galera que ia correr, e, em rápidos 15 minutos, dividimos um pouco da ansiedade. Fomos em um transporte oferecido pela organização até uma base do Exército argentino para a largada.

Como não sabia quem  eram os adversários, a minha intenção era fazer o meu melhor.
Após a largada, com uns 5km se desenhou uma prova fácil, onde eu acompanhava o ponteiro, um garoto de 19 anos, que fazia o pace que eu pretendia, além de iluminar ainda mais a escuridão. Ele também ficou com o trabalho de prestar atenção na trilha mais que eu. Assim, seguimos até os dois pontos de auxílio. Com 20km, já conversamos e nos ajudamos.

Dado momento, ele chega pro lado na trilha e avisa que precisa ir ao banheiro. Falei ok e segui. Agora seria meu ritmo e minha prova. Nas retas, mantinha o pace, mas comecei a subir e descer mais rápido que antes, porque estava à vontade para isso.

No último ponto antes da maior subida da prova, fico sabendo que o percurso mudou pelo mau tempo e, agora, iríamos até o cume e voltaríamos. Já não tinha mais controle de quilômetros até poder voltar ao ponto de auxílio e recalcular.

Subi e só encontrei o ex-ponteiro com uns 700m já de descida. Sabia que minha diferença não era muita. Então forcei muito na descida. Faltando 18km para o final, percebi que seriam 75km de prova. Mantive um ritmo que conseguia correr bem e, ao meu ver, eu não seria alcançado.

“FALTAM 4KM PARA META”. Quando avistei essa placa, estava tranquilo e mais preocupado em não ter cãimbras. Até que olhei para trás e vi dois corredores juntos tentando me ultrapassar.

Acho que os últimos 3km de prova duraram mais que toda ela. Na descida e na reta até a linha de chegada, sei que é difícil, mais pode confirmar com qualquer pessoa que assistiu à prova: colocamos um pace que chegou abaixo de 3m/km. Na verdade, acho que nunca corri assim.

Resultado 1: fechei em segundo, e o primeiro, o argentino Yango Rodriguez, de 18 anos, que fez os 7okm em 8h12m18s,  foi direto para o posto médico. Passei na linha de chegada o corredor que ficou em terceiro, o também argentino Gabriel Santos Rueda, de 18 anos, com uma diferença de 230 milésimos de segundo, com 8h12m23s para mim e 8h12m24s para ele.

Resultado 2: Estou passando mal há dois dias.”

Rafael Sodré, policial do BOPE e atleta

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