Espaço do atleta: relato de Rodrigo Câmara do Vale nos 100km da Patagônia Run

“Depois de encarar 70km ano passado, esse ano resolvi partir para os 100km da Patagônia Run. O desafio nessa distância era inédito para mim, assim como largar às 23h e passar toda a madrugada correndo.

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Rodrigo Câmara (à esquerda) e Henrique Fontenelle na diante do mapa da Patagônia Run com as seis distâncias da prova.. Arquivo pessoal

A ansiedade na largada era grande, com temperatura beirando o 0º com sensação térmica provavelmente abaixo disso. Um contraste para quem treinou no Rio de Janeiro em calor de 30 até 45º (ou até mais que isso). A presença de vários amigos que estavam na mesma prova, ajudaram a segurar o nervosismo antes da largada.

Com a largada, começaram as subidas iluminadas somente pelas lanternas de testa dos corredores. O frio aumentava conforme se subia cada vez mais na montanha. Na primeira parada em posto de assistência (PAS CORFONE no Km 14,5) tentei comer alguma coisa e não consegui, mas resolvi seguir adiante. Tentei na subida do primeiro pico (Colorado), mas nada feito. Quando estava perto de chegar ao cume, notei que um cachorro estava subindo ao meu lado, no meio de uma ventania intensa na madrugada. E seguiu descendo a montanha comigo até o próximo PAS (Colorado 1 – Km 28,9). Lá avisei à organização da “missão” que o cão tinha acabado de enfrentar. Eu sofrendo com a alimentação e o cão nem água precisou…

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Largada dos 100km da Patagônia Run, às 23h.

Nesse PAS consegui me alimentar um pouco melhor, mas o estômago seguia meio embrulhado. Segui meu ritmo e comecei a sentir o primeiro desgaste no joelho direito. Ao chegar no PAS Quilanlahue 1 (km 38) tentei comer um pouco mais e aí o enjoo aumentou e acabei passando mal, com náusea. Ali, encontrei alguns amigos de equipe e segui com eles ainda pela madrugada.

O PAS seguinte ficava 15kms de distância (trecho mais longo sem posto de assistência). Em um determinado momento, a minha lanterna de testa começou a perder a força e notei que estava isolado e com bastante dor no joelho direito. Acabei desconcentrando e pisei em falso na trilha e tive uma queda forte. Nesse momento, tive a sensação de que não iria conseguir seguir na prova depois do próximo PAS (Quechuquina, Km 52,9). Ao chegar nele, pedi assistência médica e conversei com alguns amigos que estavam por lá e que me deram muita força para seguir adiante. Assim feito, fui caminhando com um deles (que foi meu parceiro de 70km do ano passado). Ele me passou a confiança que precisava para tentar voltar a correr. A solidariedade nesse tipo de prova é enorme, todos em prol de um único objetivo: completar a prova.

Com o amanhecer, comecei a me sentir bem mais confiante e o enjoo foi embora. Mas ainda faltava o segundo pico (Quilanlahue) e mais íngreme que o primeiro. Diferentemente do ano passado, o percurso desse pico foi modificado por conta de questões climáticas. Com isso, a subida e descida eram pelo mesmo lado. Vantagem por poder cruzar com os amigos que desciam ou que enquanto eu descia (inclusive os que faziam 70km e que também tinham passar por lá). Mas a desvantagem foi que a mudança de última hora acrescentou uns 4kms à prova. Eternos 4kms adicionais!

A subida foi dura, mas bem confortante pela lindíssima vista e por encontrar muita gente conhecida, o que dava um ânimo e gás extra para seguir.

A descida do pico estava com muita poeira, e a minha vista ficou muito embaçada. Inicialmente achei que tinha perdido as lentes, mas depois (só no hotel) descobri que estavam com muita poeira. Resultado foi ter corrido as “últimas” 4 horas com a visão parcialmente comprometida. Mas como a prova é extremamente organizada (honestamente a prova de trail mais organizada que já participei), tinha sinalização o tempo inteiro. Mesmo com a visão embaçada era praticamente impossível se perder.

A volta do Quilanlahue até o PAS Colorado 2 foi uma tentativa de recuperar as pernas da subida e descida do pico. Mas na altura do campeonato (lá pelo Km 80) isso já era uma missão impossível. Então, comecei a pensar na chegada que já não estava tão longe assim e ali eu vi que iria conseguir completar a prova. Tentei curtir ao máximo esses quilômetros que ainda faltavam.

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Três momentos de Rodrigo Câmara na Patagônia Run: a chegada dos 100km, o choro por ter conquistado seu objetivo os amigos que participaram da prova com ele. Arquivo pessoal

No PAS Colorado 2 (km 83,4) encontrei uma amiga e colega de equipe e seguimos adiante juntos. No caminho ainda tinha um outro posto de assistência (PAS Bayos) que fomos muito bem acolhidos (como em todos os postos, diga-se de passagem) e ainda haviam algumas “surpresinhas” (pequeno riacho para molhar os pés e subidas inesperadas nos últimos 5km), mas nada que pudesse impedir de completar a prova.

E assim chegamos no Centro da cidade de San Martin de los Andes. Ao avistar a chegada, a emoção foi aumentando. Afinal, depois de quase 20 horas e uns 106K aproximadamente, era uma mistura de alívio e felicidade plena pelo objetivo conquistado. Ao receber a medalha, não contive as lágrimas ao lembrar do desafio, dos intermináveis treinos com os amigos da Rio Saúde e do pedido dos meus dois filhos (5 e 3 anos) para que eu voltasse com uma medalha para eles.

A prova é linda, muito bem organizada e com uma atmosfera incrível. Como bem disse um brasileiro no meio da prova: “Patagônia Run é a melhor prova de trail running do Brasil”.

Rodrigo Câmara do Vale

5 comentários Adicione o seu

  1. Jorge Raimundo disse:

    O Rodrigo é um guerreiro vencedor !!!
    Persistente nos momentos mais difíceis e corajoso para enfrentar todos os desafios. Viva o Rodrigo !!!

  2. Ronaldo Sampaio disse:

    Boa Rodrigão!!!

  3. Alexandre Câmara do Vale disse:

    Boa Rod! Foi muito raçudo!

  4. Caetano disse:

    O que você descreve como 15km entre cada PAS, eu sofro em 1km na minha corridinha mensal de 5k hahahaha… tu é o cara!

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