Espaço do atleta: relato de Alexandre Castello Branco nos 100km da Patagônia Run

100km. Se fazer essa distância de carro já demora um pouco, imagina correndo. Coloque ainda algumas montanhas no meio e talvez dê para ter uma ideia do desafio que eu resolvi encarar na Patagônia argentina no dia 8 de abril. Incentivado pelos meus amigos loucos, me inscrevi na Patagônia Run, prova com diversas distâncias, de 10 a 130km, com largada na cidade de San Martin de Los Andes, na Argentina. Como não gostamos de moleza, fomos para os 100km, sem nunca termos feito essa distância antes.

 

Muitos treinos depois e alguns problemas com a companhia aérea dos hermanos, chegamos em San Martin para o maior desafio esportivo das nossas vidas, pelo menos até agora. Já tinham me dito que a organização dessa prova era muito boa, mas quando cheguei lá, vi que era sensacional. Nunca vi tamanha organização, tudo muito bem pensado para que o atleta tenha a melhor experiência possível. Muitos pontos positivos para eles.

Depois de separar todo o equipamento e checar tudo mil vezes, eis que estava lá alinhado para a largada às 23h. Isso mesmo, iríamos correr a madrugada toda para dentro da Patagônia. Nunca havia corrido a madrugada toda sem parar,  quanto mais em uma montanha que eu não conhecia, no escuro, com frio e vento. Seria um belo desafio!

A prova já começou com subidas, além de muita poeira que subia com as  passadas de todos os ultramaratonistas que corriam na minha frente. Era hora de usar o buff (tipo um lenço/cachecol que protege do frio) e virar um ninja com a boca e o nariz cobertos.

Passada a ansiedade inicial por correr de madrugada na montanha, comecei a me  sentir mais adaptado àquelas condições, mais confiante e tranquilo, até que no primeiro posto de hidratação (Km 6), uma casinha no meio do nada, fomos “recepcionados” por um corredor vomitando muito, colocando tudo pra fora.

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Voltei logo a pensar em algumas coisas que havia prometido para mim mesmo na largada. “Respeite a montanha. Vá no seu ritmo, a prova é muito longa. Você está treinado, confia nisso”. E assim segui em frente.

Quando eram quase 3h da manhã, o frio chegou com força. Ouvi um pessoal da organização dizer que estava fazendo algo em torno de -5º C. Frio demais pro meu gosto. A descida do primeiro pico, o mais alto, era bem íngreme e castigou as minhas pernas. Comecei a sentir bastante o impacto e ainda estava muito cedo, não tinha nem 30km de prova. Cheguei no primeiro posto de assistência total (PAS), chamado Colorado, no km 29. Praticamente um oásis que parecia uma miragem. Muita bebida, comida, tenda coberta, fogueira. Como estava com as pernas pesadas, resolvi tomar logo um Advil para evitar que as pernas pesassem ainda mais. Me hidratei bem também, mas com o forte frio, as bebidas todas estavam geladas. Isso acabou baixando muito a temperatura do meu corpo e comecei a ter um princípio de hipotermia. Comecei a tremer sem parar, sem conseguir controlar. Fui para frente da fogueira e melhorei, mas assim que me afastei do fogo já voltei a tremer. Percebi que tinha duas opções. Ficar e tentar me esquentar, o que era uma tentação já que tinha tudo no PAS, ou voltar a correr rápido para aquecer, mesmo tremendo, e quem sabe afastar de vez esse fantasma da hipotermia. Escolhi a segunda opção e deu certo!

 

 

Saí correndo, mexendo os braços que nem um louco e rapidinho já estava de volta a temperatura normal. Comecei a me sentir cada vez melhor e até desenvolvi um pace razoavelmente bom, sempre com um espírito conservador para não pagar o preço lá na frente. Como era uma distância inédita pra mim, resolvi ter sempre isso em mente. Ir devagar e, se der, forçar no final, quando o “completar a prova” já estiver  garantido.

Cheguei ao outro PAS, no km 52,9, e ainda estava bem, me sentindo forte agora. Finalmente o dia estava nascendo, pois não aguentava mais correr no escuro. Já estava mais de 8h correndo com a lanterna na cabeça, sem ver muita coisa, tropeçando toda hora. Com o dia nascendo, acreditava que ganharia um ânimo novo e foi isso que aconteceu! Guardei a lanterna, coloquei uma viseira e parti!

Como não quis parar muito tempo aqui para não ter o mesmo problema do frio dos postos anteriores, me reabasteci e segui em frente.

A prova começou a ficar mais divertida, já que agora eu conseguia realmente sentir como era correr na Patagônia. Até o momento eu só via o chão ou os tornozelos de quem estivesse na minha frente. Logo chegamos em um lago enorme com montanhas ao fundo. O cenário era de tirar o fôlego, mas a atenção tinha que estar voltada à superfície do terreno, que era bem ruim de correr, cheia de pedras de todos os tamanhos e ótima para torcer o tornozelo. Aproveitei que não dava pra desenvolver muita velocidade e comecei a caminhar rápido para pegar algumas cápsulas de sal que estavam junto de outros suplementos. Com a luva dificultando o manuseio delas, o pior aconteceu. Deixei cair tudo no chão e toda a minha suplementação caiu entre as pedras!! Consegui salvar algumas cápsulas, mas pelo menos metade foi embora. E ainda faltava metade da prova.

Eu estava bem, mas faltava muito e, fatalmente, iria precisar de alguma coisa que caiu… Não tendo outra opção, segui em frente. Fui cada vez mais me aproximando do ponto crucial da prova, onde estava a minha maior preocupação desde que havia resolvido encarar esse desafio. A subida ao cume do Quilanlahue (com 1.650m de altitude). Estava apreensivo com ele não só por ser muito íngreme, mas principalmente por ter que subi-lo já tendo corrido 70km. “E se a perna falhar ali? E se na descida der cãibras?”.

Por causa do mal tempo do outro lado da montanha, a organização mudou o percurso e tivemos que subir e descer pelo mesmo lugar. Comecei devagar, sempre com a ajuda dos

poles, mas era difícil acelerar o ritmo. Além de ser muito íngreme, o terreno era feito de terra fofa e os pés afundavam a cada pisada. Estava tão lento que até o meu Garmin resolveu parar de marcar o pace. Deve ter pensado: “Cara, você tá muito lento, nem vou me dar o trabalho de dizer qual é o seu pace”. Justo.

Demorei quase 1h30m para subir uma distância de pouco menos de 4km. Mas tinha chegado ao cume e agora era só voltar. Havia ultrapassado uma barreira psicológica. Depois da descida estaria quase no km 80. Só não completaria a prova se minha perna caísse, fato! A injeção de ânimo intensificou quando encontrei com vários amigos que estavam fazendo os 100 e 70km e isso foi ótimo. Sempre bom rever os amigos no meio do perrengue.

Fui comendo os quilometros, chegando cada vez mais perto do penúltimo PAS, no Km 84. Ahhh! como eu sonhava com a hora de chegar ali. Faltando um 1km para ele, encontrei um grande amigo parado, olhando pro céu e dizendo que iria desistir, que não dava mais. Falei: “Vai desistir faltando menos de 20km pra chegada????  Tá maluco?? Vambora!” Seguimos juntos até o próximo posto e lá paramos um pouco para reabastecer. Ali também comi a empanada de queijo e presunto mais gostosa que a humanidade já produziu. Que delicia!! Empanada com um copo de Coca Cola gelada. Não podia querer outra coisa. Combinamos de seguir juntos, correndo bem devagar para terminar logo com isso. Faltavam “só” 18 km agora, menos do que uma meia maratona!

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Não consegui acompanhá-lo e tive que alternar com caminhadas, enquanto ele  seguiu em frente. Não estava com cãibras, nem bolhas (obrigado Hoka Speedgoat) mas as pernas estavam bem pesadas. Já estavam doendo. Lembrei que tinha outro Advil na mochila, e quando fui pegar, vi que ele tinha caído no lago,  alguns vários kms atrás!! Legal. Pensei: “Agora é na raça mesmo, falta pouco, vambora”. Mas que eu queria MUITO ter tomado um Advil ali eu queria. Para completar, no Km 86, a bateria do meu relógio acabou!! Nããããão!! Agora teria que imaginar quantos quilômetros faltavam para o final, no feeling mesmo. E ainda lembrei que não iria conseguir marcar no Strava que havia corrido 100km (só alguns vão me entender. Rs)! Só não foi pior do que um amigo meu que teve a bateria do seu relógio  acabando no km 98! Sacanagem!

Segui em um ritmo “devagar-se-vai-longe” até que comecei a avistar a cidade e ouvir o som do locutor que estava na linha de chegada. Quando faltavam apenas 1,5km, encontrei o mesmo amigo que queria desistir lá no km 84 e fomos conversando no finalzinho da prova. Bom encontrar um conhecido nessa altura do campeonato. Na reta final, com todo mundo gritando, uma energia contagiante, esqueci completamente qualquer dor muscular e dei um tiro pra cruzar a linha de chegada a mil por hora! Que sensação boa! Que prova! E por incrível que pareça cheguei relativamente inteiro. Vai entender…

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Até hoje ainda não caiu direito a ficha de que fiquei 19h21min correndo. Surreal. Mas muito motivador também. A gente só descobre até onde pode ir quando se dedica, se desafia, arrisca e se dá a oportunidade de tentar!

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Sobre a organização impecável da prova, tenho apenas uma queixa: ter que esperar até o ano que vem para voltar! Até 2017!”

Alexandre Castello Branco

 

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