Espaço do atleta: relato de Márcia Oliveira na ultramaratona Zion

A Escolha

Não sei ao certo quando surgiu essa “necessidade” de correr distâncias maiores; percebi que me manter por mais horas correndo se tornou mais prazeroso do que “simplesmente completar”… era assim: a tal da endorfina tinha que rolar por mais tempo,  senão não era suficiente.

Quando a equipe que treino divulgou a ideia de correr num local de canyons nos Estados Unidos, a Zion, com uma paisagem e clima totalmente diferente, fiquei excitada com a possibilidade de poder experimentar uma distância maior, e com convite de algumas companheiras para dividir o quarto a viagem se tornou viável.

A distância escolhida foi a de 50Km, mas tinham outras opções no “cardápio” da prova… 21km, 100km e 100 milhas para os que já não se contentam com poucas horas de endorfina.

A geografia do lugar é sensacional, as formações dos canyons têm cores variadas e a
beleza do lugar para quem admira a natureza não deixa nada a desejar.

O local da prova

A retirada do kit surpreendeu quem nunca fez uma prova nos Estados Unidos, como eu por exemplo, a simplicidade do lugar, uma fogueira, algumas barracas e mesas, crianças correndo descalças em meio àquela terra, e o banheiro…esse totalmente ecológico (um tonel com um tipo de terra com serragem e uma caixa com mais dessa mistura ao lado, caso usuário julgasse necessário encobrir sua atuação).

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O grande dia

Tínhamos uma previsão de chuva, desde a saída do Brasil a caminho de Springdale, em Utah. Essa previsão logo virou uma tempestade, que se fez presente sem a menor cerimônia. A largada estava prevista para as 6 da manhã, mas foi adiada por uma hora e, depois, para mais uma hora… Esse tempo de espera foi tenso. Estavam remarcando o percurso, a chuva não dava trégua. A estratégia nutricional foi destruída e o frio e a ansiedade pelo possível cancelamento da prova ou pelas condições do terreno estavam torturando os nervos.

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A temperatura estava em torno de 7˚ C, o que julgo agradável para correr, mas não para ficar parada em uma barraca. Nesse ínterim de espera, outros corredores que fizeram maiores distâncias chegavam. Eles largaram 1 dia antes, aonde a chuva trouxe mais frio, mas não os mesmos problemas que ainda iríamos enfrentar.

O Desafio

A largada foi debaixo de chuva mesmo. O primeiro trecho começou com subidas e descidas
suaves em um local com alguma lama e vegetação típica (cactos e umas plantas com espinhos). Havíamos decidido fazer a prova em pequenos grupos, que tivessem paces semelhantes, pois estávamos preocupados com o que poderia acontecer devido ao clima. Em pouco mais de 2km precisamos parar para retirar o casaco, luvas, corta-vento para seguir correndo. Nesse momento ainda estava com duas companheiras. Voltamos para a prova e seguimos juntas por mais alguns metros, mas resolvi ser mais conservadora com o ritmo e aproveitar para tirar fotos. O lugar era incrível, e nada mais justo que aproveitar. Vi na minha frente a montanha que ia subir e precisava registrar o momento.

A Lama

Esse percurso de subidas e descidas em solo argiloso terminou em uma estrada de asfalto que contornava a montanha subindo, e, ao longo dessa subida, era possível ver nuvens mais densas se aproximando.

Após chegarmos no que acreditava ser o ponto mais alto, seguimos por um caminho que deveria ser uma estrada, mas a lama já ocupava ela totalmente. E o percurso desviava para
uma trilha, com lama… muita lama.

Parecia uma cola, com uma quantidade absurda de peso nos pés. A ideia de manter um ritmo médio foi abandonada, e a necessidade de sair daquele atoleiro foi superior. Foram 30km de muita lama e inúmeros tombos.

Logo encontrei alguns amigos e seguimos juntos por um longo período, aonde precisávamos parar para tentar reduzir o peso da lama nos tênis com qualquer galho no caminho.  A chuva vinha com uma intensidade injusta, e a cada minuto o local se tornava pior. Pode-se descrever como um pântano escorregadio e traiçoeiro.

Se tentei achar outras opções de rota?… Óbvio! A vegetação ao lado parecia ser uma boa saída, mas os espinhos… esses não estavam de brincadeira.

Após essa jornada na lama, o percurso voltava para a estrada de lama, passava no posto de
controle e se direcionava para mais uma subida com lama, claro, mas menos pegajosa. E retornávamos ao posto de controle e descíamos pela estrada de asfalto.

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O erro

Na descida da estrada de asfalto, após passar pelo controle achei a distância percorrida  inferior e julguei que se voltasse pelo caminho que vi estaria errada, sim estavam lá as fitas, mas entendi errado as informações no posto de controle e passei direto pelo local aonde deveria entrar.  O que me deu um bônus de 2,6km a mais, pois desci e subi novamente quando me certifiquei que não tinham mais fitas no percurso que fiz.

A chegada

Nos quilômetros finais, confesso que sentia as pernas pesadas, mais não tive aquela sensação que já tive em outras provas, como nas de asfalto, de querer chegar o quanto antes possível. Já estava feito, o resto era completar. Encontrei um amigo que já havia finalizado (em 2º lugar geral) e aguardava a esposa para terminarem juntos novamente. Ele me certificou que eu estava finalmente no caminho certo, e logo que cheguei recebi o abraço e carinho de toda a equipe.  Finalizei a prova em 8h33m, percorrendo 47.660 mts.

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Se faria de novo

Tenho a sorte de fazer parte de uma equipe sensacional, a  ML mix Run . Eles são apaixonados por essas aventuras. Tenho suporte técnico completo, com pessoas experientes e parceiras na equipe. Suporte médico para desenvolver essas atividades sem danificar minha saúde, com a Dra Maria Amélia Bogea, e minha família, a razão e base de tudo, sem eles não faria absolutamente nada.

Reflexão

Foi uma experiência incrível, dura, e até mesmo arriscada… mas faria novamente… e ainda
farei outras tantas mais.”

Márcia Oliveira

1 comentário Adicione o seu

  1. Lecy Rodrigues disse:

    Congratulations, Marcia! In spite of having never gone so far in running (yet), I perfectly understand the feeling of completing such an awsome test.
    Two thumbs up, girl! Good job and let’s run together some day.

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