Espaço do atleta: relato de Leonardo Maciel, vice-campeão da ultramaratona Zion 55k, nos EUA

“Se eu precisasse sintetizar a edição de 2016 da Zion 55k em um único substantivo, este seria “argila” e, em um único adjetivo, “grudenta”.

A prova foi realizada em uma região fronteiriça com o Parque Nacional de Zion, localizado no estado de Utah, EUA, em uma região marcada por formações geológicas espetaculares que hoje expõem ao olho nu 2 bilhões de anos de história geológica, através de canyons, montanhas em formato de mesas e um deserto formado por dunas de argila gumbo, que colorem a paisagem em tons de vermelho, laranja, amarelo e cinza, sendo esta paleta de cores quebrada apenas por um único rio sinuoso e por uma vegetação que ainda que tímida recobre toda a região.

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Leonardo Maciel com o troféu de segundo colocado nos 55k da ultramaratona Zion

Três dias antes da prova, já no aeroporto aguardando embarque para os EUA, eu e um grupo de quase 40 brasileiros que foram correr diferentes distâncias dessa mesma prova, recebemos um email aterrorizador da organização da prova, avisando que a previsão era de condições meteorológicas adversas e que quem quisesse poderia desistir da prova sem ônus. Na hora não entendemos porque tanto terror por causa de uma chuvinha, “coisa de americano” dissemos.

Nos dois dias que antecederam a prova fizermos dois treinos/turismo em lugares incríveis e com condições climáticas perfeitas! A largada dos corredores de 100k e 100 milhas ocorreu na sexta-feira (8/4), e o clima, apesar de apresentar sinais de mudança, estava ótimo. A preocupação da organização só ficou evidente horas antes da largada das provas de 21k e 55k, no sábado de manhã (9/4), quando, ao chegar ao local da largada, nos deparamos com um mar de argila gumbo que, além de escorregar, grudava em nossos tênis, tornando a sola, por mais aderente que fosse, efetivamente lisa.

Assim, sob chuva, se deu a largada, com um atraso de duas horas e com o percurso reduzido para “apenas” 45km. As três primeiras posições foram definidas já no início da prova e não houve trocas. Cruzei com o primeiro colocado duas vezes durante o percurso, e uma vez com o terceiro colocado. O desafio não era um adversário específico, mas sim se
manter em pé e com aderência. Como a cabeça estava forte, sabia que havia feito uma preparação adequada e que tinha domínio do meu corpo em provas desta distância, corri o melhor que pude e quase fiz o que poderíamos chamar de uma prova perfeita. Só teria mudado o tênis e me certificado de dar um laço mais apertado, pois quase perdi o tênis
algumas vezes.

Imagine correr em dunas, cobertas por lama, com caneleiras de 1kg em cada perna durante 45km. Imagine que a cada finalização de passada, parte dessa lama é jogada para cima e recaia  sobre sua panturrilha. Imagine essa argila secando e se solidificando sobre sua panturrilha sempre que a chuva dava uma trégua. Imagine agora subir e descer um percurso sinuoso e estreito nessas dunas de argila, onde cada curva em alta velocidade era um convite para uma vídeo cacetada. Sem dúvida, meu passado de mais de uma década de hóquei inline e patinação de velocidade me ajudaram a ultrapassar estes obstáculos, derrapando muito, mas sem nenhuma queda.

Somente nos dez quilômetros finais fiquei sabendo que o primeiro colocado era ninguém menos que o Mike Wolfe, o atleta profissional americano que liderou de ponta a ponta e fechou a prova em 4h01m25s. Tentei em vão alcançá-lo, quase vomitando de tanto fazer força ao me aproximar da linha de chegada. À 100m do fim, alcancei um grupo de amigos brasileiros que corriam os 21k e cruzamos todos juntos de mãos dadas, foi emocionante! Após 4h36m53s, a recompensa pelo segundo lugar – em terceiro ficou o também americano Dan Campbell, com 4h39m00s – foi um troféu feito à mão pelo povo indígena que habita a região, um banho demorado, um jantar romântico com a esposa (também finisher) e uma comemoração com todos os amigos que assim como eu completaram o desafio!”

LEONARDO MACIEL

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