Espaço do atleta: relato de Manuela Vilaseca, campeã dos 70km na Ultra Fiord 2016

“O calendário de corridas de trail é tão vasto. O que te faz repetir uma prova? Isso sempre me pergunto antes de fazer meu planejamento anual. Quando fazemos provas muito longas temos que levar em conta que cada uma delas é um “cartucho” que queimamos e por isso a importância de escolher a dedo o que vamos fazer. 

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Ano passado participei da edição inaugural da Ultra Fiord e foi uma prova que me surpreendeu muito. Tive sorte com as circunstâncias e, como já tinha um calendário bastante cheio, aceitei o desafio de correr os 70km e não mais. Digo sorte porque esses 70km equivalem a muito mais. Na Patagônia tudo é uma surpresa, a começar pelo clima. Impressionante a velocidade com a qual tudo muda nessa região do planeta. Em um piscar de olhos um dia espetacular pode se tornar um grande pesadelo. 
 
Esse ano voltei para fazer os mesmo 70km, que no final das contas se transformaram em algo completamente diferente. A previsão de uma grande frente fria estava estabelecida justo na semana da prova e isso implicou em uma série de mudanças. Quando cheguei em Punta Arenas fiquei sabendo que todos os percursos haviam sido alterados, exceto o de 50km. Todas as distâncias foram reduzidas. Minha reação inicial foi aquela cara de decepção, pois eu estava sonhando em reviver a edição de 2016. No segundo instante já entendi a gravidade do assunto. O Stjepan é conhecido por organizar as provas mais radiais e extremas do planeta e se ele tomou essa decisão é porque o que estava por vir não era brincadeira. Olhei pelo lado positivo de que ia passar por lugares novos e conhecer a região por um ângulo totalmente diferente. 
 
A largada dos 70km foi às 10h de sexta feira e reduzida a 62km. Não passaríamos na cota de 1.300m, no topo do glaciar, mas de qualquer forma subiríamos aos 860m. Isso já significava frio o bastante e eu estava muito alerta, pois já tive a oportunidade de correr na Patagônia algumas vezes e sei o perigo que isso representa. Estava abrigada para encarar as baixas temperaturas da região.
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Quando partimos estava nevando levemente, mas o fato de começar subindo já me trouxe boas sensações. Enquanto eu deixava meu corpo aquecer, desfrutava da paisagem e do terreno macio em qual corríamos. Tive a sorte de fazer os 15km iniciais com dois amigos do Rio, Daniel e André, e isso foi muito legal. Corríamos por uma estradinha acidentada, que virava de um lado para o outro e subia e descia suave e constantemente. O cenário era super bonito e a neve que caía dava um toque especial ao momento. Quando me dei conta, já estava no single track que descia ao primeiro e maior ponto de abastecimento da prova, ao lado do Hotel Rio Serrano. 
 
Havia deixado dentro de um “drop bag” toda a minha alimentação para a prova, pois larguei com apenas um gel na mochila afim de não carregar todo o peso desde o início. Quando cheguei no PC tive a má notícia de que a minha sacola não estava lá, então peguei um chocolate, uns biscoitinhos e saí.
 
O trecho seguinte ia por dentro de um bosque, fazendo zigue-zague entre as árvores, num ambiente muito bonito. Já sabia que a subida viria logo em seguida, mas não tinha ideia de como ela seria. Tivemos muita sorte nesse trecho porque havia pouco barro e era tudo bastante “corrível”. Nesse momento fazia sol e eu tirei minha luva porque sentia um pouco de calor. Lembro de pensar, “Caramba, será que vai abrir um dia bonito?” Engano meu, pois em pouquíssimo tempo o clima mudou novamente. A parte mais selvagem da prova estava por vir.
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A subida passou bastante rápido e foi muito fácil perceber a mudança da cota de altitude. De repente a vegetação foi substituída por pedras e uma forte rajada de vento. Em muitas provas eu hesito se devo botar o goretex ou não, mas naquele momento não tive a menor dúvida. Estiquei o braço e com a mão acessei a parte de fora da minha mochila, onde havia deixado o abrigo, já sabendo que iria utilizá-lo. Nessas horas, o tempo de reação é essencial e quanto mais rápido você agir, mais seguro você vai estar.
 
O vento soprava cada vez mais forte e eu só pensava em correr e passar aquele trecho o mais rápido possível. Também pensava no quanto tudo que eu levava comigo era essencial, inclusive meus óculos. A neve que caía sobre meu rosto, somada ao vento gelado, teria causado problemas sérios na minha vista. Eu corria com uma luva emborrachada e mesmo assim minhas mãos estavam congeladas. Meus dedos doíam muito e eu corria de mão fechada, movimentando os dedos ocasionalmente para mantê-los aquecidos. Eu sabia da importância de correr e sair da montanha o quanto antes. Lembro de dois momentos em que, através daquela tempestade, um pequeno raio de sol deu as caras. Embora tenham sido dois momentos breves, meu corpo foi regado de uma sensação agradável por alguns segundos. Era um trecho com muitas pedras e eu dividia minha atenção entre onde estava pisando e a sinalização de percurso. Não passei uma marca sem voltar minha atenção para a marca seguinte.
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Quando atingi o trecho de descida comecei a me lembrar da edição anterior, pois já havia passado ali. Era uma descida escorregadia e com muita lama, que depois de cruzar uma pequena cachoeira nos levava para dentro do bosque novamente. Esse bosque eu lembrava bem, pois no ano passado ele parecia interminável. Apesar de saber que teria uma parte demorada pela frente, eu me surpreendia com o fato de “só faltar” essa parte. As árvores tinham um colorido incrível e suas folhas mudavam de verde para vermelho e amarelo. No meio daquela mata fechada às vezes aparecia um riozinho ou uma vista de uma linda montanha nevada ao lado. As curvas eram muito sinuosas e a trilha costurava essa floresta que eu apelidei de “Senhor dos Anéis.” Em muitos trechos havia barro e turba,  vegetação típica da Patagônia. Preciso ressaltar que em em cima de qualquer desses dois terrenos, a progressão é muito lenta, mas, comparado ao ano passado, tivemos uma quantidade muito inferior desse tipo de terreno, o que ajudou a tornar a prova muito mais rápida.
 
Passei por muitos corredores das outras distâncias que falavam comigo e me motivavam. Isso foi realmente muito especial e eu adorei poder compartilhar a prova com tanta gente conhecida. De repente, a trilha começou a mudar e se tornar um pouco mais larga e definida. Passei por um amigo, Gustavo, que corria os 100km e perguntei se sabia quantos quilômetros faltavam até a Estancia Perales. Ele me disse que uns 5km e isso me surpreendeu muito, pois eu achei que faltava muito mais. Eu estava com fome, mas me confortei com o fato de que estava próxima à linha de chegada.
 
De repente a vegetação abriu e eu comecei a correr em cima de um gramado. Lembrei perfeitamente do ano passado e sabia que estava perto de concluir a prova. Quando avistei o Rio, consegui visualizar uma casa e as bandeiras da Ultra Fiord. Lá estava eu, no final da minha missão. Cruzei o Rio, a meta, parei meu GPS e olhei para trás. A natureza mostrava seus dentes novamente. Uma cortina de neve e vento atingiam a Estância. Entrei na casa, com a felicidade de haver chegado na hora certa, concluindo mais um grande desafio e ainda por cima podendo levar a vitória para casa, com 8h14m01s. Agradeço o carinho e torcida de todos.”
MANUELA VILASECA
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