Espaço do atleta: relato de Vera Saporito nos 70km da Ultra Fiord

“A Ultra Fiord (que aconteceu entre os dias 14 e 16 de abril) foi uma prova muito dura, nível técnico elevadíssimo, onde pude saber o que é ser auto suficiente de verdade!!!!

Chegamos, eu e Marcello Cesario, a Punta Arenas depois de quase sete horas de voo (São Paulo-Santiago-Punta Arenas) e mais duas horas de carro até Porto Natales de carona com o Alex Vicintin para pegar o kit de corrida no dia seguinte. Longe pra kct, um frio lazarento de bater os dentes!!!!

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Vera e Marcelo Cesário na chegada em Punta Arenas

No dia seguinte, ficamos sabendo que a largada da prova havia mudado de lugar e a distância não seria mais 70km, mas sim de 62km… As condições climáticas não permitiria que chegássemos até a geleira, pois  nevava sem parar. A previsão do tempo era de 1 a 4 graus. Isso colocaria em risco a vida dos atletas… Fiquei um pouco chateada. Como a largada seria no Hotel Serrano, tinha fechado minha hospedagem ali. Mas nossa logística foi toda mudada.

Pegamos nosso kit e procuramos um táxi, que custou US$ 200 até o hotel. Entrei em desespero!! 200 dólares é dinheiro pra kct! Eu e Ma fomos chateadíssimos. Tínhamos a esperança do hotel ter um transporte para minha largada. Não ia ficar pagando táxi pra cima e pra baixo. Não iria rolar. Coloquei os pés na pousada e olhei pra recepcionista e para minha alegria ela era brasileira:

– Olá, bem vindos!!

– Ah vc é brasileira???? pqpqpqpq

– Sim! Me chamo Ingrid.

– Ingrid, acabei de vir de táxi pra cá e o cara me cobrou 200 dólares!!!

– Que absurdo!!!! Sairia menos da metade, Vera… Que pena.

– Esta sabendo alguma coisa da prova. A largada não vai ser mais aqui. Algum transporte, sei lá…

– Não nos informaram nada…

Enfim continuei numa tristeza sem fim. Andei pelo corredor e vi a Manu (Vilaseca). Sempre encontro ela no desespero (rs):

– Manuuuuu que bom te ver, pqp! Cara, mudaram tudo. Gastei uma grana de táxi. Se tiver que ficar pagando táxi pra cima e pra baixo não volto pro Brasil!

– Calma, mulher. Tem transporte sim. kkkk

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Daniel Vasconcelos, Manuela Vilaseca e Vera Saporito antes da largada da Ultra Fiord. Arquivo pessoal

Sentados perto da Manu estavam o Gustavo e a Roberta Palma. Como fiquei feliz em vê-los. A Roberta iria correr 30km. O Ma e o Gustavo, 100km e o Harry Thomas Jr também os 70km. Depois apareceu Fernando Nazário e só assim comecei a curtir a viagem de novo.
Nos acomodamos, fomos andar pelo hotel, tiramos fotos, fizemos uma bagunça boa e bora dormir, que a van ia sair às 9h.

Puta hotel chique e não tem televisão??? Oi??? Foi osso pegar no sono viu?? Adoro correr nas montanhas, mas pera lá né??? kkk

Acordei às 6h, arrumei tudo dei uma geral e fui pra van. A hora que a porta automática abriu, eu petrifiquei. O vento frio doía no nariz, passava pelos ossos, loucuraaaa!!! Chegamos no Mirador Grey. O cara da van abriu a porta e quem disse que alguém queria descer???? kkkkk. Descemos e entramos num ônibus. Mais um monte de brasileiros. A bagunça pré-largada estava feita!!! Encontrei Camila, Marcelo, Cris Faccin. Sempre os mesmos casca-grossas de sempre!!!!!

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Nas minhas largadas, como sempre, eu sofro. Já tinha uma subida. Com frio, com o sol até aparecendo, senti falta de ar junto com calor. Sei lá. Parecia que iria dar pane. Parei, arranquei o casaco corta-vento e comecei a tentar encaixar o ritmo. A neve veio de novo. Achei lindo!!!! Lindo uma vez, duas, na terceira já mandei: pqp. Tinha que nevar tanto assim???kkkk. A neve dói quando bate no rosto.

Corremos por bosques, vegetações lindas, árvores grandes. Subimos bastante. Quando começou a descida apertei o passo e desci embolando até o primeiro posto. Queria um banheiro. Apertada num grau master e número dois ainda!!! Fiquei parada uns 15 minutos. Correr apertada não rola!

Aliviada e finalmente com um ritmo ok , corremos pelo bosque a dentro, tipo tobogã, num sobe e desce o tempo todo. Foi quando apareceu uma subida absurda, que dava exatamente para o topo da montanha. A neve apertou, o chão virou um emaranhado de pedras com neve na canela. Estava aquecida, mas minhas mãos começaram a congelar.

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Eu só queria sair rápido daquele trecho. Por conta disso, caí varias vezes. Tomei um tombo e rolei uns 50 metros. Sentei, respirei e fiquei com medo. Comecei a subir de volta pelo caminho demarcado rezando e agradecendo. Encontrei um argentino e uma brasileira junto. Ele estava auxiliando ela, que já estava enrolada no cobertor de emergência,  chorando. Eu e outro argentino apertamos o passo e quem chegasse primeiro no check point avisaria sobre a brasileira. Consegui avisar o pessoal.

Encontrei o Harry e o Enzo. Minhas mãos estavam congeladas. Pedi pro Enzo colocar as luvas em mim porque meus dedos adormeceram… que pânico! Era impossível caminhar. Se eu caminhasse, esfriava e fui assim até o final. Tombos cinematográficos e trote rápido!

Encontrei a Katia Ronise Fernandes. Admiro demais. Encarou as 100 milhas. Conversamos um pouco e segui o caminho… Acabou esse trecho, graças a Deus!!! Consegui encontrar a Camila e o Alex Vicintin de novo. Fizemos umas piadas e paramos num ponto pra comer miojo… Cara,miojo da barato, sabia?? Dei uma tigela pra Camila. Quando olhei pra ela e vi o miojo pendurado na boca dela, comecei a ter um ataque de riso e ela também! A galera olhou pra gente tentando entender qual era a piada. O Alex partiu, a Ka foi encher a bolsa de água e lá fomos nós…

O percurso não tinha mais neve no chão, só na cabeça, que booom!!! Bom nada. Havia uma vegetação no chão, que parecia esponja, e lama pra kct!!! Havia chegado o tal do charco. Parecia um chão de barro. Quando eu pensava que era rasa, a poça atolava até o joelho!!!! Houve um momento em que atolei até a cintura. E quem disse que eu conseguia sair. Passou um cara gigante do meu lado e eu gritei:

– Me ajuda pelo amor de Deus!!!

Ele conseguiu me tirar na terceira tentativa. Estava muito atolada. Foi tenso, mas a gente morreu de rir! A Camila me alcançou de novo e foi meu pacer por uns 6km. Colocamos a fofoca em dia: casa, filho, marido, trabalho, provas etc. E um chileno gordinho na nossa cola escutando tudo. kkkkkk.

Como a Ka estava disputando categoria com uma chilena que passou por nós, ela parou de conversar e saiu voando e eu fiquei com o gordinho…

A neve apertou absurdamente. Doía nos olhos, no peito. Estava escuro e, para finalizar, um rio até o joelho, mas largo pra caralho:

– Meu não acredito!!!

Olhei pro gordinho. Vamooooo passa essa porra logo! Passamos e consigo avistar uma caminhonete com uma brasileira.

– Qual seu número?

– 7434.

– Vamoooo, Brasil!!! Vira à direita e chegou ao destino. Parabéns,  você é casca grossa, moça!

Passei o pórtico de chegada (em 10h49m13s, na 45ª colocação geral e 7ª entre as mulheres. A campeã foi a brasileira Manoela Vilaseca, com 8h14m01s). Entrei na estância e todo mundo quentinho. Me coloquei do lado de uma lareira e de lá não sai até a van nos levar pro hotel.

 

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“Existem fotos que contam uma história da nossa vida!!!! Minha chegada da Ultra Fiord no Chile!! Obrigada, Graziela, por capturar um momento tão importante na minha vida de ultramaratonista!”

Minha visão sobre a prova: Dura,como qualquer outra prova na Patagônia. Essa foi mais ainda pelas condições climáticas. Eu mesma nunca havia corrido com tanta neve, muito menos com tanto charco. Houve um óbito na prova, algumas pessoas perdidas,os 30km viraram 15, o que eu achei bom. Geralmente a menor distância é escolhida por iniciantes.
Espero que para uma próxima os organizadores tenham ciência que para uma prova desta grandiosidade acontecer, deve existir um aparato ainda maior. A natureza é extraordinária e por isso deve ser respeitada e estudada nos mínimos detalhes. Eu voltaria a correr neste lugar maravilhoso. É o que eu amo fazer!!!!!
Força, montanheiros!!!!!!

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Vera Saporito com a medalha da Ultra Fiord
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