Espaço do atleta: Lhamas, calor e altitude no Peru e no Rio, por Ana Lúcia Azevedo

Calor ou altitude, o que é pior? Para mim, sempre foi o primeiro. E se havia uma gota de dúvida, evaporou depois de correr a Mountain Do Vale Sagrado dos Incas, em 22 de maio, e no domingo seguinte, a Maratona do Rio. A primeira, de fato, era a prova que queria fazer. A segunda veio de bônus.

Estava inscrita desde o ano passado, gostei do corte da camiseta ao pegar o kit com a minha equipe Filhos do Vento no sábado e como só uso camisetas de provas que corro, decidi ir. Isso só lá pela madrugada do domingo 29. Experiência que me valeu a certeza de que altitude de 3.000 metros não se equipara ao bafo do asfalto de Copacabana. Claro, a Mountain Do é muito mais dura do que a prova do Rio. Mas isso tem a ver com o sobe e desce em trilha, como toda prova de montanha. A altitude não é o monstro que pintam. Já o calor é o demônio ou o inferno não seria quente.

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Na largada da Mountain Do Vale Sagrado dos Incas

Quem encara um treino no verão venusiano do Rio pode estar certo que vai ficar menos exaurido nas alturas de temperatura amena. Falo aqui da casa dos 3.000 metros e não de altitudes maiores. Tampouco é possível incluir pessoas que têm realmente suscetibilidade à altitude _ o que as multidões que se acotovelam lépidas e fagueiras pelas ruas de Cusco sugerem que são poucas.

Sou carioca mas adoro dias frios e nublados e abomino com veemência o calor. Este independentemente de gosto é uma pestilência inimiga de quem corre. Inimigo da Humanidade e da natureza, em geral. Calor obriga o corpo a trabalhar mais para se resfriar e evitar o superaquecimento do cérebro. Exaure os músculos. Desidrata. Dúvidas podem ser tiradas com uma consulta ao registro de recordes de maratona e ver se algum foi batido no calor.

O fato de a temperatura diminuir à medida que se ganha altitude me pareceu um argumento irresistível. E mais atraente do que lembrar que a concentração de oxigênio também é reduzida. Até porque esse segundo fato pode fazer diferença para quem busca performance, mas não para quem corre principalmente para se divertir como eu.

Quando decidi correr a prova no Peru, em pleno apocalipse do verão carioca, o Vale Sagrado acenou como paraíso para espairecer do trabalho, que inclui coberturas de tragédias e misérias, como o zika e a lama da Samarco no Rio Doce. Queria paz, refresco literal e ver muitas lhamas, alpacas e  vicunhas _ adoro camelídeos sul-americanos.

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Ana Lúcia Azevedo no início da prova antes de entra nas trilhas do Vale Sagrado

Na Mountain Do o cenário deslumbra com o rio de águas azul-geleira, plantações de muitas cores e florestas que parecem se pendurar nas montanhas. Estas formam um
vale estreito de paredes íngremes, em que ter mais de 4.000 metros não é exceção, mas regra. Os incas veneravam essa terra que hoje atrai milhares de visitantes.

A prova tem largada e chegada no vilarejo de Huambutio, mais baixo do que Cusco (3.450 metros), a 2.900 metros de altitude. A prova chega a 3.300 metros, mas se mantém na faixa dos 3.000 por trilhas e caminhos incas, em sua maior parte.

Nos primeiros 21K, ela corre pelas encostas com os canais construídos pelos incas há mais de meio milênio. Estes são canaletas de cerca de 30 cm de largura beiradas ora por single track ora pela própria borda. A prova faz a curva de volta em San Salvador, cruza o Rio Urubamba e pega a Trilha Inca até Huambutio.

No caminho, é festa e folha de coca. Os moradores dos vilarejos quéchua por onde a prova passa receberam a corrida _ a primeira maratona naquela região do vale _ como se fossem as Olimpíadas. Muito bacana e quase surreal ser saudada por danças típicas entre nada e lugar algum, bem no meio da prova.

Não faço a menor ideia se folha de coca de fato ajuda a prevenir dor de cabeça e náuseas _ dois dos efeitos do mal de altitude _ mas o fato é que não senti nada. Zero problema relacionado à altitude. Só o cansaço normal em qualquer corrida.

Como “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, masquei folha de coca. Todo mundo em Cusco dizia que era essencial. Amigos que conheciam a região recomendaram.
Os funcionários do hotel. A moça que vendia xales. Todos.

Assim, lhama perdeu com a minha desenvoltura. Na verdade, eu mascava, as mulheres dos vilarejos mascavam, crianças e velhos mascavam, turistas mascavam e as lhamas, se não mascavam, pareciam estar mascando.

Folha de coca é amarga, fedida, gruda no dente, desgraça o já desgraçado gel, mas não ouso não recomendar. Dizem que aumenta a pressão. A minha ficou onde estava. Lá em baixo. Ou seja, se não ajuda, mal não faz. Fosse isso, teríamos legiões de turistas mortos.

Se o durante da prova foi tranquilo no quis diz respeito à altitude _ o resto é a pedreira esperada _ o antes foi martírio. Primeiro, porque quando você fala que vai correr uma maratona no Vale Sagrado, as pessoas fazem aquela cara de “oh céus você é louca de correr nessa altitude”. Primeiro, não é tão alto assim. Segundo, porque a estratégia recomendada pela Sports Do foi acertada.

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Para se aclimatar de verdade à altitude, você precisa chegar com semanas de antecedência. Descartada essa opção para quem trabalha, fica a de chegar uns cinco ou quatro dias antes. Isso é tempo para você passar muito mal se for esse o seu destino. Ou ficar bem no dia da prova _ quinto ou quarto dia. Fui treinar no dia seguinte a minha chegada.

Sou asmática e não lembro de ter sentido tanta falta de ar desde quando, por volta dos meus 10 anos de idade, fui parar num balão de oxigênio. Corri os piores míseros e miseráveis 6K da minha vida. Falta de ar, coração na boca, pressão na cabeça.

Pensei que estava muito frita. Ou asfixiada. Achei que ia desmoronar logo após a largada. Mas no dia seguinte a esse malfadado treino fui para Machu Picchu, a 2.400 metros, e
melhorei muito. O ar voltou. É nesse momento que a pessoa se anima. Jantei com um bom vinho. E a malvada altitude nem deu pinta.

Passeei por Cusco na véspera da prova, relaxei com os amigos e um pisco _ não ganho a vida com corrida e não vou viajar e abrir mão dos prazeres à mesa nem que Mercúrio se materialize na minha frente com asinha no pé. Quer dizer, talvez assim reavalie.

Mas amanheci no dia da prova apavorada. Vi gente desistindo. Pensei em todas minhas violações no manual do corredor. Aí vi as lhamas felizes, alpacas lanudas, toda aquela gente e as montanhas lindas daquela parte dos Andes. E, principalmente, percebi que não estava me sentindo mal. Na verdade, estava ótima.

E assim foi. Para a maioria das pessoas, essa altitude não fará mal algum. Nenhum dos corredores da maratona teve mal de altitude. E, se tivesse, a prova é tão absurdamente
bem organizada, que seria logo socorrido.

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Ana Lúcia Azevedo com as medalhas das duas maratonas que fez em uma semana

Depois da prova refleti que talvez um estudo que li meses antes tivesse algum fundamento e o amaldiçoado calor servisse para alguma coisa. Segundo a pesquisa, treinar em
calor extremo (os 40º C normais aqui do Rio) causa tamanho estresse celular que simula os efeitos da baixa concentração de oxigênio. Ou seja, treinar no inferno ajuda na preparação
para provas em altitude. É como mascar folha de coca, sei lá se faz efeito, mas não custa acreditar. Para quem quiser conferir o estudo, ele está aqui (http://journal.frontiersin.org/article/10.3389/fphys.201600078/full).

Claro que também segui como sempre o meu queridíssimo treinador e guru Ricardo Sartorato e coloquei fé nas ladeiras, o que no meu caso não é sacrifício algum, pois
plano é sinônimo de tédio.

E de volta para casa, no domingo seguinte, com a tal vontade de usar a camiseta fui para a Maratona do Rio, prova desagradavelmente quente. Além das praias, ela tem outra marca registrada do Rio: um asfalto tão ruim que compete com as trilhas para ver quem tem mais buraco. Não, não gosto mesmo de prova plana no asfalto, principalmente das que fervem no sentido literal. Acho chato de doer. Folgo por quem gosta. Mas não é a minha praia. E, sim, calor é pior do que altitude.”

Ana Lúcia Azevedo

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