Existe padrão ideal de corrida? Com a palavra, os especialistas…

Por Alan Marques e Gabriel Zeitoune

Nos últimos anos, recebemos uma enxurrada de informações sobre qual deveria ser o “padrão ouro” de mecânica da corrida, muita destas informações são fomentadas pela indústria de calçados. E, em via de regra, convencidos que existe um “padrão ouro de corrida”, onde neste modelo teríamos uma redução significativa de lesões, principal motivo de afastamento do corredor de sua atividade física, vamos ver o que a ciência nos diz a respeito do tema.

É muito comum, entre os corredores, o assunto a respeito de que tipo de calçado devemos utilizar ou se não devemos utilizar algum calçado para correr. Outro tema polêmico é se devemos entrar em contato com o solo utilizando o calcanhar ou a ponta do pé. Estas são algumas das perguntas mais frequentes dos corredores que querem evitar lesões e melhorar seu rendimento nos treinos e competições. Quem nunca olhou para os corredores de elite tentando ver como eles correm? Ou quem nunca buscou nas redes sociais ou na mídia o que fazer? Acredito que muitos corredores tenham feito e fazem isso. No entanto, a melhor forma de obter informação a respeito desses assuntos é buscar o conhecimento na literatura científica, para entender cada uma dessas perguntas.

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Muitas dessas dúvidas vieram à tona em 2010, depois que um artigo foi publicado na “Nature”, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, por um grupo de pesquisa de Harvard (“Foot strike patterns and collision forces in habitually barefoot versus shod runners”). Todos podemos imaginar o efeito que este artigo poderia ter causado e causou. Ele abordou que correr descalço faria com que as pessoas corressem na ponta do pé ou com o pé plano e, com isso, seria possível melhorar o padrão de corrida e proteger as articulações das pernas e dos pés, evitando lesões causadas pelo pico de impacto aumentado. No entanto, ao ler com mais calma o artigo e observar todos os resultados encontrados, não somente os discutidos pelos autores, é possível observar que não é o fato de correr descalço ou calçado que irá provocar uma diminuição do pico de impacto e, sim, o fato de realizar o contato com o solo utilizando o calcanhar ou a ponta do pé.

Um estudo prospectivo desse ano que viu a quantidade e tipos de lesões após um ano de prática da corrida entre corredores descalços e calçados mostrou que, após um ano de corrida, não houve diferenças no número de lesões relativas entre os grupos.

Desde então, diversos trabalhos têm sido feitos para identificar as vantagens e desvantagens de cada um dos tipos de padrão de corrida. Baseado nesses estudos iremos fazer uma linha de raciocínio.

O estudo “Foot strike patterns of recreational and sub-elite runners in a long-distance road race” observou que mais de 80% dos corredores possuem o padrão de corrida com o calcanhar, enquanto que somente 4,4% utilizavam a ponta do pé ou pé plano. Outro estudo “Foot strike patterns of runners at the 15-km point during an elite-level half marathon” mostrou que corredores mais rápidos tendem a utilizar o padrão de corrida com a ponta do pé. O que poderia nos levar a pensar que utilizar este padrão de corrida seria o mais adequado. No entanto, há evidências que, de acordo com o aumento da velocidade, o padrão de corrida de um mesmo corredor tende a se modificar. Sendo que em velocidades mais baixas costumam correr utilizando o calcanhar e em velocidades mais altas utilizam a ponta do pé. Esta evidência explica que possivelmente aqueles corredores mais velozes, não necessariamente escolhem o padrão da ponta do pé, mas isso pode ser um fator velocidade-dependente.

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Então as perguntas que nos restam são: Quais as vantagens e desvantagens de correr com a ponta do pé ou com o calcanhar? É verdade que correr com a ponta do pé evita lesões? Correr com o calcanhar faz com que eu tenha mais impacto na corrida? É mais eficiente correr na ponta do pé? É aconselhável modificar a forma como eu faço o contato inicial?

Quantas dúvidas. Vamos por partes.

Primeiro ponto: vamos falar sobre eficiência na corrida. A literatura é bem conflitante nesse assunto. Os estudos recentes encontraram resultados controversos sobre que tipo de contato inicial é mais eficiente. A única informação coesa a respeito desse assunto mostra uma relação entre o aumento de 1% do consumo de VO2 para o incremento de 100g do calçado. Ou seja, qualquer tipo de argumento em relação a eficiência da corrida e tipo de contato inicial é no mínimo questionável.

Segundo ponto: o estudo “Relationship between running speed and initial foot contact patterns” de um grupo de pes
quisa da Bélgica mostrou que uma alteração brusca (sem passar por um processo de aprendizado) na forma de realizar o contato inicial com o solo provoca um aumento na sobrecarga e diminuição da eficiência da corrida. Ou seja, é muito importante que os corredores saibam que é preciso treinamento para que se consiga mudar o padrão da corrida sem que aumente o risco de lesão.

Terceiro ponto: correr com o calcanhar é realmente mais impactante que correr com a ponta do pé, e os estudos mostram que esse tipo de contato aumenta a pressão no joelho, aumentando o risco de lesão nesta articulação. No entanto, isso não torna o contato inicial com a ponta do pé menos lesivo que o com o calcanhar. Estudos apontam que a corrida com a ponta do pé sobrecarrega mais a articulação do tornozelo ao invés do joelho e que isso faz com que o número de lesões não se modifique, o que ocorre é que as lesões mudam de articulação. As lesões que anteriormente localizavam-se nos joelhos e quadris, principalmente, começam a aparecer na planta dos pés, nas panturrilhas e nos tendões de Aquiles. O grande problema é que em 2012 o grupo de Harvard resolveu atacar novamente e publicaram um estudo que evidenciou que correr com o calcanhar tende a provocar mais lesões que correr com a ponta do pé. No entanto, se formos críticos em relação a esse estudo, perceberemos alguns erros metodológicos. Para um estudo EPIDEMIOLÓGICO, somente 52 sujeitos – sendo 36 corredores com o calcanhar e 16 com a ponta do pé – é um número muito baixo e desbalanceado para esse tipo de estudo. O que torna questionável esses resultados encontrados, inviabilizando a inferência dos mesmos para toda a população. Ou seja, na verdade o que percebemos é que dependendo do tipo de contato inicial, o local que absorve a carga se modifica e com isso a articulação sobrecarregada também se altera, aumentando o risco de lesão na mesma. Então qual é a saída? Parar de correr? NÃO! O importante é identificarmos que fatores aumentam a sobrecarga em cada um dos padrões de corrida e intervir de forma a conseguir fortalecer os músculos certos para aguentar aquela sobrecarga. Sendo assim, quem correr naturalmente com o calcanhar, deve saber que seu joelho está constantemente sendo sobrecarregado, então deve haver um foco especial, em seu treinamento de força, nos músculos que envolvem essa articulação. Enquanto que nos que utilizam a ponta do pé, é primordial que as estruturas do complexo tornozelo pé estejam fortes o suficiente para absorver essa carga. Caso haja necessidade de alteração de padrão de contato inicial, é FUNDAMENTAL a intervenção de um profissional de educação física capacitado que faça um fortalecimento na região que será sobrecarregada e que o processo seja lento e progressivo, para que o novo padrão seja aprendido e não imposto.

Alan Marques – Pesquisador do IBTS (Instituto Brasil de Tecnologia da Saúde)

Gabriel Zeitoune – Pesquisador do IBTS (Instituto Brasil de Tecnologia da Saúde); Biomecânico da Biocinética e Doutorando da Coppe em Engenharia Biomédica.

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