Última na maratona feminina dos Jogos, cambojana tem 44 anos e é pós-doutorada em imunologia

Reportagem de  Luiza Franco publicada na Folha de S.Paulo, em 15/8

A 133ª e última colocada da maratona olímpica feminina terminou a prova deste domingo (14) quase uma hora depois da vencedora, mas chegou sorrindo.

Trazia a bandeira do seu país, o Camboja, que mostra o templo de Angkor Wat sobre fundo azul e vermelho.

Aos 44 anos —12 a mais do que a primeira colocada– e depois de 3 horas e vinte minutos de corrida debaixo de um sol de 32°C, se tornou, naquele momento, a primeira cambojana a correr uma maratona olímpica.

Curiosos puderam, então, conhecer a história da maratonista que nem atleta é.

Ela, na verdade, é doutora Ly, cientista, pós-doutorada em imunologia, especialista em transmissão do vírus HIV da mãe para o feto.

Fez pós-doutorado nos EUA e doutorado na França, onde se refugiou, aos nove anos, do regime de Pol Pot, do Khmer Vermelho, que matou pelo menos 1,8 milhão de pessoas, mais ou menos um quarto da população do país.

 

Ly terminou a maratona num tempo inferior ao seu melhor, que é de duas horas e cinquenta e nove minutos.

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Nary Ly com a bandeira do Camboja nos metros finais da maratona feminina dos Jogos Olímpicos Rio 2016

Queria manter um ritmo que a permitisse atingir o objetivo que traçara um ano e meio antes, quando decidiu interromper seu trabalho de pesquisadora e professora universitária em Phnom Penh, capital do Camboja, para se dedicar à corrida.

“Soube que não havia corredoras olímpicas de longa distância no meu país. Decidi parar tudo para ser a primeira e mostrar para o mundo que as mulheres cambojanas podem, sim, correr os 42 quilômetros da maratona.”

Cansada, ela ao menos deixou que a Folha a acompanhasse enquanto caminhava, de chinelo e cheia de bolhas no pé, do Sambódromo, onde acabara a corrida, até o ônibus que a levaria à Vila dos Atletas, na Barra.

Quando chegasse lá, disse, só queria fazer uma coisa: dormir a tarde toda.

Ly tomou gosto pela corrida quando morava em Nova York, onde fez pós-doutorado na Escola de Medicina do Hospital Monte Sinai. Foi lá que correu sua primeira maratona, em 2009.

“Quando você está fazendo um doutorado, às vezes se pergunta por quê. Enquanto seus amigos estão saindo para beber, você está no laboratório, preocupada com prazos e com suas pesquisas, e ainda ganha menos do que alguém que estudou administração, por exemplo.”

“Num treino para uma maratona, há momentos assim. Era tanto esforço que eu me questionava por que estava fazendo aquilo. No fim, a motivação é a mesma: a tentativa de mudar as coisas.”

Quando decidiu deixar seu emprego para treinar para a Rio-2016, sua família não entendeu nada. O Camboja não é um país conhecido por ter uma postura de incentivo a mulheres no esporte.

“É muito raro no Camboja ver uma mulher correr os 42 quilômetros de uma maratona. Na Ásia, as mulheres gostam de ter a pele muito branca, pois isso é sinal de que você não trabalhou no campo. Mas na corrida você se queima muito, então elas acham feio, não é valorizado”, diz.

“Mais estranho ainda para a minha família foi me ver largar um trabalho que me pagava bem para fazer isso. Mas eu vejo de outra forma. Para mim, o que importa é inspirar as novas gerações. Se eu, com a idade que tenho, consegui, imagine elas!”

Ly considera que tem duas famílias, uma cambojana e outra francesa. Quando a guerra no Camboja esquentou, ela foi levada para um campo de refugiados. De lá, foi enviada à França, onde um tio a encontraria.

Mas ele não apareceu, então Ly acabou nas mãos da Cruz Vermelha. Foi-lhe dada a escolha de viver num orfanato ou ser adotada, ela escolheu a segunda opção.

Ao falar sobre a delegação de refugiados que participa desta Olimpíada, Ly embarga a voz e franze a testa.

“Fiquei muito orgulhosa e muito tocada quando soube que haveria uma equipe de refugiados como eu. Isso é o espírito olímpico. Não importa a medalha, o importante é lutar”, diz a última colocada antes de entrar no ônibus,

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