Espaço do atleta: Da incerteza à confiança, a experiência de Angélica Brum na Meia Maratona de Buenos Aires

Na semana em que festejo o esforço de conseguir correr por 5km, depois de me recuperar de uma grave lesão nos isquiotibiais, lembro que há um ano eu estava prestes a bater uma meta pessoal: baixei meu tempo para meias maratonas e aprendi que podia mais. Às vésperas dos 21k de Buenos Aires, que acontece no próximo dia 4/9, publico aqui no Blog do Iúri Totti o texto que escrevi contando como foi participar dessa prova adorada por tantos brasileiros.

Tempo. Há um ano eu postava no Facebook o compromisso de uma mudança de hábitos proposta pelo meu clínico: um programa de reeducação alimentar. Objetivo? Reduzir as taxas de colesterol e ácido úrico que subiam apesar de mais de uma década de corrida e de uma dieta que estava longe de ser considerada das piores. Segui as orientações, perdi medidas e meus tempos baixaram também. Mas a comemoração, de certa forma, aconteceu quando cruzei a linha de chegada de minha 14ª meia maratona e tive certeza de que estava na hora de pensar num novo desafio.

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Angélica Brum com a medalha da Meia Maratona de Buenos Aires

Eu era uma entre os mais de de 22 mil inscritos na edição 2015 dos 21km de Buenos Aires. Ainda nem sabia se tinha conseguido baixar a barreira das duas horas ­­ do meu objetivo até então. Antes mesmo de pôr a medalha no pescoço, a minha cabeça estava feita: eu ia tentar uma maratona.

A ideia de saltar de 21km para 42km, lembro, surgiu lá por volta do Km 14 ou 15. Geralmente, a essa altura, tomo isotônico ou, então, gel de carboidrato com água para ganhar disposição. Nesse caso, o ânimo veio antes. Mais ou menos meia hora antes, quando senti uma dor atípica no quadril. Na falta da suplementação, dei um gás só com uns goles d’água e falei ­­ sim, eu também falo comigo enquanto corro ­­ que completaria a prova.

Agora, sentada em frente à tela, acho que já cogitei não completar uma meia maratona: aquela primeira da nova série da Ponte Rio­-Niterói. Ou talvez, duas. Se levar em conta o frio que passei na Disney, em 2010. Não sei. Com certeza, naquele domingo, foi diferente. Eu havia me programado bastante para estar ali e, de repente, por alguns momentos, cheguei a pensar que nem largaria. E como concluir aquilo que gente sequer começou?

Eu não estava sozinha. Ainda bem. Saímos em  cinco do hotel no Micro Centro. Um grupo de vítimas da orientação equivocada da recepção: de que não haveria necessidade de reservar um táxi com antecedência para o trajeto até o evento.

A pé, subimos a Avenida Córdoba em direção ao Obelisco e nada. O desespero aumentava à medida que a gente percebia o óbvio: o trânsito na área havia sido desviado e os táxis ­­ livres ou ocupados ­­ eram cada vez mais raros. A gente já estava caminhando há mais de 20 minutos sem esperança, quando, numa das esquinas, outro corredor se aproximou.

Ele era argentino. Pedimos informação e a resposta veio em portunhol. O novo integrante, filho de uruguaios e neto de brasileiro, parecia ter trazido sorte. Em poucos instantes, aparecerem dois táxis. A gente se dividiu: os três corredores de São Paulo seguiram em um. Morris, o argentino, Marco, o italiano, e eu, no outro.

Dentro do carro, o morador de Buenos Aires, dava as coordenadas. E os dois estrangeiros, no banco de trás, conseguiam entender que algo ia mal.

O taxista se afastava do ponto da largada. Dava para ver no mapa ali na minha mão. Em algum momento, o colega argentino pediu que o carro parasse, que a gente ficaria por ali. Mas onde era ali? Não se via vestígios do evento que prometia parar a cidade naquela manhã.

Não estou exagerando. Foram mais de cinco quilômetros a pé até conseguir avistar a largada. Nesse trajeto, com o cronômetro desligado, pensei em desistir. Julguei que a frustração seria o tom do texto sobre aquele dia em que poderia ter quebrado um recorde pessoal mas nem consegui dar o primeiro passo.

A situação não era nada boa. Por um bom trecho, a gente nem tinha ideia de quando ia chegar, de fato, à prova. A confirmação de que seguíamos nos caminho certo veio quando começamos a cruzar com os primeiros colocados que vinham em sentido contrário. Era um bocado de gente.

Apertamos o passo, nos poupamos. Vou repetir: a gente caminhou/trotou por quase seis quilômetros, antes de começar correr os 21km.

De frente para o pórtico, incrível, o estresse passou. Ainda pusemos as sacolas no guarda­volumes e fomos ao banheiro. Largamos com mais de 33 minutos de prova. A informação estava no cronômetro oficial e foi confirmada na divulgação dos resultados.

Cheguei a correr uns dois quilômetros sem relógio. Mais ou menos a distância que precisei para me juntar a um bolinho de competidores e me sentir, enfim, no jogo. Na Avenida Nove de Julho, por uma uma coincidência enorme, avistei e acenei para o meu companheiro de corrida, o Marco. Eu subindo, e, claro, ele já descendo. Tudo dentro do esperado.

Pela primeira vez naquele dia, desde que a gente havia deixado o hotel, tudo parecia previsível. As expectativas mais otimistas também se concretizaram no encerramento: fechei em menos de duas horas. A temperatura, a companhia, o histórico de provas, as tabelas cumpridas à risca, o ajuste na alimentação, a torcida dos amigos. Tudo ajudou.

Mas tudo isso eu já conhecia. É notícia velha para quem me segue? ­­ E nem sei se justifica a decisão de correr uma maratona. A novidade dessa prova foi a confiança, a tranquilidade. Parece que deixei de dar mesmo ouvido ao desânimo. Em Buenos Aires, em 2015, bati uma meta pessoal importante: aprendi que posso até custar encontrar o caminho certo, me cansar antes da largada, sentir dor e mesmo assim cruzar a linha de chegada.

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