Palavra do especialista: ‘Corredor e a brincadeira de pular amarelinha’, por Alan Marques

Quantos treinos são necessários para se construir um maratonista? E um ultramaratonista? Em via de regra, em todas as modalidades esportivas necessitamos de um tempo natural para a maturação do atleta, seja ele amador ou profissional. Dentro do cenário da corrida, seja ele de rua ou montanha (trail), parecemos viver um contrassenso. Cada dia mais os corredores almejam feitos grandiosos sem ter um lastro de treinamento físico e mental para tal. E assim seguimos… Cada vez mais o novo corredor segue pulando etapas dentro da sua escala evolutiva no esporte.

Outrora, os corredores levavam anos para correr uma maratona, corriam varias meias maratonas antes de ir debutar nos 42km. Hoje, mal se inicia na corrida e já se está inscrito em uma ultramaratona. O cenário correto é a execução de provas menores para ganhos de condicionamento e experiência. Mas atualmente, o calendário de prova do corredor é baseado na escolha de terceiros, sejam eles atletas ou personalidades do mundo da corrida e não na sua própria condição física.

Hoje, muitos sites, blogs e redes sociais nos oferecem uma quantidade exacerbada de conhecimento prático aplicado. Em uma breve busca na internet, encontramos uma infinidade de dicas, planilhas, modelos de treinamento, intervenções nutricionais e outras. Com isso, muitos corredores são influenciados a correr distancias cada vez maiores sem um devido preparo. Assim, pulando muitas etapas na construção do corredor.

A grande pergunta é? Podemos assumir que o que é bom para um, será para todos? Ou será que todos são capazes dos mesmos feitos com as mesmas quantidades de treinos e com os mesmos prazos? Dentro desse viés, vemos muitos corredores pulando as mais variadas fases da formação do corredor.

Parece haver uma seleção para provas como maratona e ultramaratona que vem sendo desrespeitadas pelo corredor, em especial nas provas trail, onde muitos escolhem fazer provas de longas distancias e não possuem bagagem para tal. Apenas pelo simples argumento que podem completar uma determinada corrida, mesmo que isso lhe gere consequências gravíssimas no futuro.

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Muitos corredores pensam em correr longas distâncias e ainda não têm domínio sobre si próprio. Ainda não se conhecem, ainda não foram expostos a treinos que lhe dessem uma real noção do esforço que é correr uma maratona. Quando nos debruçamos em especial sobre provas longas, entendemos a necessidade de termos uma maior preparação física com etapas a serem cumpridas. As adaptações nos sistemas cardiorrespiratório, musculoesquelético e termo-regulatório são desprezadas pelo corredor, uma vez que ele negligencia o tempo necessário para que ocorram as adaptações fisiológicas no corpo humano, e cada individuo possui um tempo próprio para tais adaptações.

Os fatores psicológicos são peças fundamentais para realização de provas de longas distâncias e ter domínio sobre tal aspecto é de extrema importância. Somente com uma quantidade adequada de treinos, o corredor vai adquirindo a capacidade de avaliação do cenário interno (estado funcional do corpo) e externo (leitura do ambiente, como calor, umidade, tipo de terreno…), e esta tomada de decisão é determinante para o sucesso em qualquer que seja a prova.

O grande sonho de todo corredor é cruzar a linha de chegada de uma maratona, entretanto, isso deve ser feito de maneira assertiva e cuidadosa. Respeitando uma progressão natural de treinamento, buscando criar uma rede de especialistas que avaliem o condicionamento atual, gerem diretrizes de treinamento, descanso, equipamentos, alimentação e suplementação. Assim, não será necessário pular etapas dentro da corrida, e, consequentemente, dar passadas para trás.

Alan Marques é treinador

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