Espaço do Atleta: A vitória de Fernando Nazário nos 5okm na Ultra Trail Torres del Paine, na Patagônia chilena

MAIS PERTO DA NATUREZA. Patagônia chilena, Parque Nacional de Torres del Paine, sétima maravilha do mundo, terceira Ultra Trail de Torres del Paine e eu.

Um dia antes da competição, que aconteceu em 25 de setembro, a natureza nos dá aquele presente. Dia ensolarado, com a possibilidade de visualizar todas as belezas naturais e as cores daquele lugar. O dia da competição foi igual, o que poderia ser um presságio para me mostrar ser possível conseguir duas vitórias naquele lugar… Esquece. É melhor não pensar muito, eu dizia.

Vamos pra largada. Como sempre aquele frio intenso, às 7 da manhã, aquela vontade enorme de sair correndo e sentir por meio do meu esforço um pouco mais de calor. Nesta 3ª edição e com seu terceiro trajeto diferente, e por saber que não sou tão rápido em provas de 50k, tratei de estudar toda estratégia de hidratação e alimentação baseada em tempos específicos e altimetria do percurso.

Diante dos competidores que estavam ali, uma das chances de chegar entre os 3 primeiros colocados era ser impecável na estratégia. Largamos às 8h10min, em um ritmo alucinante e eu em quinto lugar, muito rápido para o que planejava. Passamos os primeiros 10k abaixo de 42min. Eu queria extrair o meu melhor naquele momento. Meus adversários em suas condições essenciais seriam meu referencial para que eu fosse em busca do meu melhor. Isso não significaria vitória a qualquer preço, mas sim a busca do ser humano em dar o melhor de si em total harmonia com a natureza que me cercava.

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Corri em 5º lugar, visualizando o quarto e terceiro bem próximos. No km 15, com aproximadamente 1h04min, fui o único que se hidratou e abasteceu a mochila com isotônico, pois sabia que o próximo ponto era apenas no km 27. Pela experiência que tenho nesta região da Patagônia, não ter uma estratégia bem definida pode custar caro para completar a corrida ou almejar posições no pódio. Segui como tinha planejado, me hidratando, no máximo, de 20 em 20 minutos, com aproximadamente 150 a 200ml de isotônico ou água, 1 gel de carboidrato a cada 30 minutos e 1 cápsula de sal a cada hora.

Passei pelo Km 20 com 1h31min e, próximo do km 25, encosto no chileno Emmanuel (2º colocado) e pergunto se ele precisava de algo. Ele me disse que queria água. Entreguei minha garrafa de isotônico em suas mãos e falei que poderia ficar com ela por toda corrida.

Continuei correndo forte e agora em segundo lugar. Chego ao Km 27 para abastecer minha mochila. Neste momento, vejo o brasileiro Pablo em primeiro lugar. Saio bem próximo e rapidamente consegui encostar nele. Juntos, fomos até o Km 30 com 2h39min, quando iria começar o longo trecho de subida até o Km 45. Nesta hora me senti bem e comecei a impor meu ritmo na subida,  com toda força, sem descuidar da alimentação e hidratação.

No final da subida, a natureza nos prepara uma linda paisagem; lagos escondido com patos nadando e pássaros voando no alto da montanha. Essa energia me encheu e a certeza que minha esposa estaria de braços abertos me esperando na linha de chegada fez com que eu fizesse toda a força, superasse toda dor com das câimbras finais, sem olhar pra trás.

A poucos metros do fim me recordo de conversar com Deus e, novamente em um momento único de devoção, agradecer o presente e perguntar, com os olhos cheios de lágrima, o que Ele quer me ensinar novamente? Agradeci a todos pela energia que me enviavam e pela torcida dos meus alunos, amigos e familiares que acreditam mais em mim do que eu mesmo. Acreditei, lutei e busquei meu bicampeonato em terras patagônicas com 53km em 4h48min.

Recebi o abraço que esperava da minha esposa e o carinho de todos que estavam ali. Com meus pés firmes no chão e, naquele momento com a alma leve, coração em paz e a cabeça nas nuvens, eu havia conseguido. Não menos feliz pela vitória, mas radiante por saber que chegar até ali vale mais a pena que qualquer pódio. Fiz uma competição sem julgamentos, pois se eu conheço toda grandeza da natureza e junto à ela critico a todo o momento minhas fraquezas, retiro de mim o poder do aprendizado superior. Mas quando penetro profunda e amorosamente em suas boas qualidades, eu assimilo essa força e, assim, busco esta energia para correr cada vez mais rápido e em paz. Muito Obrigado a todos pela energia.

Fernando Nazário, apenas um corredor que corre.

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