Espaço do Atleta: XC Run Búzios, a estreia de Marcelo Telles Ribeiro em uma maratona de trail

A XCRun Buzios 2016, no último sábado (22/10), foi uma prova dura, pois foi minha primeira maratona trail run.

Me inscrevi na modalidade solo – a prova também pode ser feita em duplas (21km para cada corredor) ou em quarteto (10,5km). Pelo sucesso da prova, as inscrições acabaram antes mesmo da virada do primeiro lote, que tinha o valor de R$ 270.

No kit, que foi entregue no hotel Pérola de Búzios, na Rua das Pedras, veio a camisa do evento em uma tonaliade verde/azul turquesa, com uma logo remetendo ao mar, areia e montanhas, com a proteção de UV em 50+, além da viseira, uma “hydro-pack” e a sacola.

O congresso técnico, também no Pérola de Búzios, começou às 20h de sexta. Como eu sai do Rio de Janeiro às 16h, com os meus pais, além do tradicional engarrafamento na Ponte Rio-Niterói  e na Niterói-Manilha até São Gonçalo, fiz uma parada na estrada. Cheguei ao hotel no encerramento do congresso.

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No sábado, eu fiz questão de chegar cedo na área da largada, às 6h10m, para curtir todo o clima e encontrar com diversos amigos corredores que tenho feito ao longo dos últimos 15 anos, de todas as categorias e idades, mostrando que o esporte é união e a vitória é o seu desafio pessoal. Cada um com seu objetivo, seja de performance (tempo), qualidade de vida, social e por aí vai.

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Larguei às 7h02m, com um entusiasmo tremendo e os corredores espremidos nos 2km iniciais pelas ruas da cidade, que se iniciam em piso em pedra e depois vem o paralelepípedo. Esse primeiro trecho é o mais urbano e uma “montanha russa”, onde, nas primeiras subidas, já se diferenciam os mais velozes e furiosos, preparados para a  insanidade que viria nos demais trechos.

No meu planejamento, iria concluí-lo em 1h05m e consegui cravar. Como era a minha primeira vez em Búzios, não conhecia o sistema de hidratação (uma caixa d’água de aproximadamente 250 litros, com  4 torneiras para o corredor abastecer seu próprio copo, garrafa ou mochila de hidratação). Nesse ponto eu levei quase 2 minutos entre beber e repor a água para a saída do segundo trecho. A pedreira continuou no sobe e desce e começamos a variar o piso, de terra e areia da praia.

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O dia estava nublado, o que ajudou bastante. Quando cruzei a praia de Geribá, fui surpreendido pela minha filha Maria Clara, de 21 anos, que corre alguns quilômetros ao meu lado. Quando cheguei ao Km 15 e o corpo já mostrava sinais de cansaço depois de 1h40m. Saí de Geribá com a areia fofa. Fui para a metade da prova e para a subida mais difícil – o famoso trecho de Tucuns. Passei com 2h22m pelos 21km. Já estava meio zonzo e, por um vacilo qualquer, estava mais preocupado com a água e repositores energéticos e cápsula de sal e BCAA, que esqueci de comer as frutas oferecidas… Para evitar a areia fofa,  eu persegui uma mistura de mato rasteiro e areia atá o pé do morro, onde para a minha sorte, tinham duas bananas. Como nas transições há novos corredores (duplas ou quartetos) é importante que você permita a passagem deles. Fiz isso na subida de single track em Tucuns, em uma mata fechada e com características bem praiana.

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Quando estava quase no topo escutei um música de roda de capoeira “Paranauê”. Isso me incentivou e quando encontrei os capoeiristas até brinquei com uma ginga pra lá e outra pra cá. Comecei a despencar na estrada de terra. Esse ponto foi o meu melhor, pois estava descansado e motivado. Como sou um bom amador (treinado e dedicado), fiquei atrás dos feras e à frente da tchurma do fundão e, repentidamente, me vi correndo sozinho. Quando atingi a parte do Vale, parecíamos que estávamos correndo em uma fazenda em pleno Búzios, o que foi uma surpresa, com gado e a paisagem longe das praias. E mais subida pela frente.

Entre cada posto de troca sempre havia um ponto de hidratação intermediário. Aproveitava para dar uma força aos colegas e dividirmos o sofrimento alheio. Em especial, o corredor de número 1171, Alexandre. Ficamos um passando o outro, já com o pace elevado (acima de 6 min/km) até a terceira e última transição, que fiz em 3h50m. Para mim, foi a transição mais confusa, pois o pessoal não estava respeitando o funil e eu tive até dificuldade para encher as garrafinhas e pegar o gel e seguir em frente. A prova cruza a rodovia por dois trechos e a polícia fez um ótimo trabalho, isolando a pista para a passagem dos atletas.

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Para a minha surpresa, o meu professor/técnico Paulo Henrique, da equipe ML, estava lá e, de certa forma, deu uma gás psicológico para enfrentar a praia Rasa. Esse trecho parecia interminável, pois é muito longo e mesmo com o treinamento e ensinamento de outra grande atleta e coach Vanessa Protassio Fiqueiredo sobre Copacabana para a Meia do Rio – aquele trecho era o dobro da distância e eu já estava exaurido. Me concentrei para tentar correr dentro do meu melhor. A maré ajudou e nesse trecho eu ainda não tinha molhado o tênis. Mas essa alegria durou pouco, pois no trecho adiante fui com o pé na água.

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Trecho com pedras, seixos e alguns fotógrafos muito bem posicionados para o registro do lindo visual e superação. No km 39,5 eu fiz uma besteira!!! Sim, quis tirar uma foto em pleno ar e gritei ao fotografo: “avisa quando for pra saltar”. Com 4h50m, é obvio que os músculos todos estavam travados e, quando aterrissei, uma forte dor na batata da perna esquerda deu o recado: “Leão da Montanha (meu codinome), respeita a maratona e vá com calma! O susto passou e continuei a caminhar. De repente, escorreguei e fui ao chão pelo limo das pedras… E o importante não é cair e sim a força com que você levanta!

Voltei a caminhar e trotar até uma subida curta muito insana, que tinha dois staffs da prova para auxiliar. Depois disso, mais trilha até chegar na praia da Ferradura, depois do km 40, e já escutar que estava próximo da linha de chegada. Quando sai da areia para o início da Rua das Pedras, o meu relógio marcava 5h11m – e o número 11 tem sido especial para mim. Foi o dia que minha filha nasceu. E que o meu outro coach João Montenegro tem como filosofia: “paga 11, pois você pode dar 10% a mais, sempre!”

Com um sorriso no rosto, a alma lavada e a felicidade plena transbordando, agradeci a Deus e cruzei a linha de chegada. Essa foi a minha sétima maratona e a primeira trail run. É muita emoção. A hidratação pós-prova foi excelente, pois já começava com um delicioso e gelado chopp da Petrópolis e a água de coco Obrigado. A confraternização, os amigos e a animação valeram cada centavo, cada treino, cada gota de suor. Convido você a corredor, independentemente da sua distância ou tempo, a desfrutar dessa emoção. Nos vemos em 2017 !!! E você deve estar perguntando: e a Maria Clara? É CLARO que ela foi me buscar – pai herói e coach…. Em 2017 planejamos nossa primeira meia maratona internacional… mas será outra história!”

Marcelo Telles Ribeiro

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