Espaço do Atleta: A batalha de Edu Elias para realizar o sonho de conquistar a medalha da Maratona de Nova York

Foi uma batalha. Mas isso, toda maratona é.

O que eu não sabia é que as famosas subidas de Nova York fariam tanta diferença… E foi assim que meu tempo projetado, algo entre 3h35 a 3h37, virou 3h45m48s.

O meu melhor tempo é de 13 minutos a menos, 3h32 em Chicago 2014.

Desapontado?

Nada disso.

A Maratona de Nova York sempre foi um sonho deste corredor que vos escreve… Desde minhas primeiras provas, NYC sempre esteve no horizonte. Na São Silvestre de 94, por exemplo, já me imaginava correndo em Manhattan…

Finalmente, 22 anos depois, o sonho se realizou.

E não seriam alguns minutos a menos que diminuiriam minha alegria.

Nem a espera… O meu ferry boat para Staten Island estava marcado para 6 horas da manhã. Acordei às 5. E a minha largada (segunda das 4 ondas) foi somente as 10h15.

Mas a organização é espetacular… Além do ferry, os ônibus que saem de Manhattan levam todos os 50 mil corredores para a largada. E tudo ocorre na maior tranquilidade.

Gostei da experiência do ferry. O dia amanhecia e eu passava ao lado da Estátua da Liberdade, confortavelmente instalado numa cadeira e conversando com Albert, um boa-praça catalão que conheci no metrô e ia pra sua segunda maratona (completou em 3h38)

Albert disse que a estação do Ferry, já em Staten Island, era um ótimo lugar para a espera. Banheiros limpos e lojas, como se fosse um shopping, com cadeiras e ótima temperatura…

A ideia foi ótima, mas demoramos demais. Quase uma hora e meia. Quando saímos, os ônibus faziam fila do lado de fora para levar para a largada. Sem trânsito, levaríamos menos de 10 minutos… Só que naquele momento, homens da segurança paravam ônibus, para a inspeção total dos veículos… E isso formava a fila. Imensa.

Demoramos mais de uma hora dentro do ônibus. E foi uma correria. Quando cheguei lá, tinha de achar meu curral, e a voluntária foi direta. “Você tem cinco minutos pra entrar, vai fechar logo. Você tem que correr.”

Se não chegasse, teria de sair na onda seguinte. Mais 25 minutos de espera.

Corri. Cheguei. E assim que fechou o portão, eu já estava na fila (pequena) do banheiro. O que eu achei engraçado foi a mensagem no alto falante, muito educada, dizendo que era proibido urinar do alto da ponte. O corredor que fizesse isso seria sacado da prova…

Enfim, respira. Inspira. E transpira.

A prova. O tiro de canhão, a canção e a emoção.

A ponte Verrazano Narrows, de onde largamos, é a mais longa do percurso. São quase 3 quilômetros. Subidão logo de cara…

Depois, bandas (muito rock, para minha alegria), crianças, cartazes… O Brooklyn recebe a prova de braços abertos… Todos ali são pura alegria.

Aliás, tem público de ponta a ponta (menos nas pontes). Galera estimada em 1 milhão de pessoas. E é impressionante o apoio da galera, dando fruta, água, vaselina e gritos. Muitos gritos de apoio. Mais do que em Chicago, onde corri duas maratonas.

Gostei dos caras fantasiados de dinossauro. Dos garotinhos pedindo High five… Também dos cartazes.

“If Trump can run, so can you.”

“Run like Clinton. Trump is behind you.”

“I am just trying to cross the street”

“Runners fart raimbows.”

Tudo isso serve como combustível…

Então a festa segue. Do Brooklyn pro Queens, e de lá para Manhattan, no km 24.

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Estamos finalmente correndo na ilha mais famosa do mundo. Mas estamos no final da maratona também e minha perna começou a doer. Mais do que nas minhas outras maratonas. Antes do que nas outras provas.

Mas estava mentalmente preparado. Mesmo contra as dores, subi dignamente mais uma ponte, para o Bronx. Voltei a Manhattan. E percebi ali: todos ao meu redor sentiam o baque. O ritmo da prova cai muito na segunda parte. O meu, particularmente, estava bem mais lento. Ao contrário de outras provas, não me deixei abater. Entendi que era a circunstância. E nada poderia me desanimar.

Em resumo, não me senti “quebrado”.

Aos 35 km, decidi que não era hora de desistir. E fui alcançado pela marcadora de ritmo dos 3h45m. Colei nela e em seu séquito, naquele grupo que parecia seguir o líder Antonio Conselheiro em Canudos. Acelerei, ganhei uns 20 segundos por km na base da força. E isso, num trecho de uma subida leve, mas longa. Entre os 35 e os 37 km. Voltei para 5’25/km.

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Era hora de fazer força. Central Park. Subidas e descidas finais. Muita torcida. Hora da coragem, pensei. Fui na luta, como deve ser.

Tão concentrado, contornamos a parte sul do Central Park, e eu nem me emocionei muito. Encarei a última e cruel subida, de uns 200 metros. Íngrime. Cruelmente íngreme. Eu era pura concentração.

Mas foi cruzar a linha de chegada e as lágrimas já escorriam pelo meu rosto.

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Sonho realizado.

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Deu no New York Times…
Eu recomendo!”

Edu Elias

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