Por VICENT SOBRINHO*

Ele mora no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo, ao lado da marginal do Rio Pinheiros. Lá fica a Favela Real Parque, de onde se avista a Ponte Estaiada, o novo cartão postal da cidade e local de largada da maratona paulistana. São quatro horas da manhã, e o corredor e carroceiro Nino desperta para mais um longo e duro dia, na busca de um futuro melhor. José Cássio de Oliveira Santos, 32 anos, nasceu em Nova Açores, BA, e chegou com apenas 1 ano em São Paulo; morou pouco tempo com a mãe e o padrasto na favela Paraisópolis, mudando-se para a Real Parque. Nino é seu apelido e onde mora ninguém o conhece pelo nome, “Cássio, às vezes até eu esqueço!” brinca. Rapaz tímido e acanhado, ele é chamado pelo verdadeiro nome pelos amigos de corrida da equipe Run For Life, onde treina três vezes por semana, na pista de atletismo do Ginásio do Ibirapuera.

Cássio recorda que a corrida apareceu em sua vida como uma benção, há pouco mais de um ano: “Eu estava na rua puxando meu carrinho, já no fim do dia, de repente, do nada, uma senhora me ofereceu três camisetas regata. Logo pensei: estas servem para correr e como era época de São Silvestre foi um incentivo.”

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A vontade de correr era tanta que Nino começou logo na primeira manhã, num domingo: “Saí correndo daqui da porta do barraco, fui e voltei sozinho até o Parque Ibirapuera, sem parar; quase desmaiei de cansaço e o pior, ao descalçar, percebi que as unhas estavam todas pretas, e duas ficaram no fundo do tênis, que era apertado.” As condições eram mínimas, Nino só tinha esse par de calçado, o único para trabalhar e agora correr. “Eu caminhava com ele dia-a-dia, puxando meu carrinho, e só no domingo treinava. Até que ele durou um bom tempo”.

Nino leva uma vida cronometrada, a partir das 4 horas da manhã. Contando com a gentileza de motoristas e cobradores para não pagar a passagem, desce próximo à pista de atletismo do Ginásio do Ibirapuera e começa os treinamentos pontualmente às 6 horas, com o técnico Wanderlei Oliveira. Nino foi encaminhado ao Programa Corrida de Rua e Qualidade de Vida da Secretaria de Esportes, Lazer e Turismo do Governo do Estado de São Paulo em parceria com a Federação Paulista de Atletismo, lançado em maio de 2008, em que alguns técnicos que utilizam a pista para treinamento de suas equipes particulares se comprometem a atender gratuitamente alguns corredores do programa.

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Nino e o herói olímpico Vanderlei Cordeiro de Lima

PARA FICAR MAIS PERTO DOS FILHOS. Após os treinamentos pela manhã, Nino volta rapidamente para casa, prepara o almoço e leva seu casal de filhos e uma sobrinha para a escola municipal, que fica a 1 km de sua casa. Cássio é casado com Josileide da Silva Moreira, empregada doméstica, com quem tem dois filhos, Tatiane, 7 anos, Jonathan, 6. “Não conheço outra forma de viver, sempre morei em favela; já trabalhei registrado em três empregos, como faxineiro e ajudante geral, mas escolhi puxar carrinho para estar sempre próximo de meus filhos, pois o ganho era praticamente o mesmo”. Nino faz questão disso e explica. “Já vi coisas horríveis, que aparecem somente em filme, mas na favela são a mais pura realidade; só posso educar aqui meus filhos, vigiando, estando perto deles. A luta é todo dia; aqui se os pais não fizerem pelos filhos, os ‘lobos’ farão.” Para Nino, nada é mais importante em sua vida do que a educação dos filhos.

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A família já passou dificuldades extremas, inclusive Nino precisou pedir dinheiro nos semáforos em avenidas e dentro dos ônibus. “Realmente dói na alma pedir; fiz porque não podia deixar meus filhos com fome, minha mulher também estava sem emprego naquele momento e não conseguíamos nada, mas foi apenas por alguns dias”.

CATANDO NO LIXO. Após deixar as crianças na escola, Cássio pega o carrinho e circula pelos bairros vizinhos para colher materiais, até às 14 horas. Patriota, sempre amarra a bandeira do Brasil em seu carrinho, puxando-o por mais de 10 km. Trabalha assim duas vezes ao dia, três a quatro horas pela manhã, repetindo à tarde. Os melhores dias são quando não passa o caminhão do lixo: segunda, quarta, sexta e sábado e, às vezes, até no domingo. “Saio vasculhando lixeiras a procura de papelão, garrafas, alumínio, ferro ou qualquer objeto que consiga vender; já encontrei relógios, rádios, celulares e até televisão, e já devolvi cheques jogados por engano.” Após descarregar os recicláveis da primeira viagem em um quartinho alugado, almoça e parte para outra direção; às 17horas volta para a escola para buscar os filhos. Quem pensa que Nino está em melhor forma porque anda o dia todo, ele esclarece: “Não é fácil; levanto muito peso e carrego objetos de formatos diferentes, o que mais me dói são as costas, pois agacho muitas vezes para pegar materiais nas lixeiras, mas a corrida tem me ajudado a diminuir as dores”. O maior dinheiro que Nino ganhou em um mês foi R$ 1.200, e isso já faz três anos. “Ultimamente por causa da tal crise mundial, por vários dias eu não ganho quase nada, porque estão pagando bem menos pelo papelão, garrafas pet, latas de alumínio etc”.

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À NOITE, UM ALUNO APLICADO. Às 19 horas é a sua vez de entrar na escola, a mesma dos filhos, a sua nova e verdadeira corrida pela vida: aprender a ler e a escrever! Nino está em processo de alfabetização. Ele contou que sempre teve dificuldades de concentração para aprender; quando criança ficou com medo porque apanhava do padrasto.

Sua professora de matemática e português é Darcy dos Santos Avalone, que já alfabetizou mais de dois mil alunos em 42 anos de ensino. Ela explica que na maioria das vezes a barreira é fruto da vergonha e do preconceito sofridos por serem analfabetos.”Esse é o principal e mais difícil obstáculo a ser superado pelo aluno.”

No dia dessa entrevista Nino estava orgulhoso, pois foi sua primeira vez de ir à lousa. “O Cássio é muito interessado; nunca se atrasa e senta sempre na primeira carteira. Diz que correr mudou sua maneira de pensar na vida. Ninguém se alfabetiza se não melhorar a auto-estima, e a corrida tem feito isso com ele!”, observou a professora.

Para o técnico Wanderlei Oliveira, Cássio é admirado no grupo pela disciplina, dedicação e persistência. “Ele faz em média de 100 km semanais e realiza corretamente seus treinos técnicos. Vejo como uma grande oportunidade na vida dele. Ele sabe disso e está investindo tudo, principalmente voltando a estudar!”

Nino tem feito provas de 10 km para 33 minutos.

*Vicent Sobrinho é jornalista e corredor, dos bons.