Pesquisa polêmica aponta que corrida em excesso aumenta o risco de morte prematura

Em 2014, no meu antigo blog no GLOBO, publiquei uma reportagem de Frederico Goulart, da editoria Saúde sobre uma pesquisa polêmica nos Estados Unidos que aponta que o ideal é limitar a atividade a duas ou três horas por semana. Ela contradiz outros estudos que afirmam uma série de benefícios que a corrida traz para a saúde. Vale uma (re)leitura.

Quem dedica muitas horas e quilômetros por semana ao treinamento para maratonas pode estar na mão contrária do que prega a boa cartilha para a longevidade. Essa foi a surpreendente descoberta de um estudo publicado esta semana na revista científica “Health Day”. Segundo o trabalho – que foi realizado por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Cardiovascular “Lehigh Valley Health Network”, da Pensilvânia, Estados Unidos -, correr demais pode levar à morte precoce.

A pesquisa sugeriu que as pessoas que vivem por mais tempo são aquelas que realizam uma quantidade moderada de exercício – o que equivale a duas ou três horas de caminhada na semana. O estudo também mostrou que correr muito – ou nada – é determinante para uma expectativa de vida mais curta.

Esse resultado contradiz diversos trabalhos segundo os quais a corrida faz bem à saúde. A ressalva apontada nas conclusões indica que os responsáveis pela análise não têm certeza do que causa esse efeito nocivo. Uma das sugestões é o prejuízo à saúde do coração.

Foto (Foto: Corredores da Maratona do Rio na Barra da Tijuca. Foto de divulgação)
Corredores da Maratona do Rio na Barra da Tijuca/Divulgação

Na avaliação de Claudio Gil de Araújo, professor do Instituto do Coração Edson Saad da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor médico da Clinimex, especializada em medicina do esporte, o estudo precisa de mais fundamentação, já que ela não avalia completamente a sobrevida.

Ele garante que para a prática de exercício se associar ao prolongamento da vida são necessário níveis baixos de sedentarismo e altos de condição física – classificada como uma combinação de três fatores: base genética, treinamentos a que somos expostos na vida, e a forma como esses dois fatores se relacionam.

– Ter condição física é mais importante para a longevidade do que ser fisicamente ativo. Existem pessoas que não fazem exercício e têm boa condição. Há quem corra todo dia e não tenha – descreve o professor.

Claudio Gil também acrescenta que contribuições científicas recentes reforçaram que não são apenas as atividades aeróbicas que devem ser consideradas importantes.

– As condições músculo esqueléticas, definidas pela flexibilidade, potência muscular e boa composição corporal (ausência de obesidade) são fundamentais como variáveis capazes de indicar um bom condicionamento. As pessoas que se dedicam à maratona herdam boas condições para se dotarem dessas características.

Limite saudável. O professor explica que a medicina esportiva ainda não chegou a um denominador a respeito do limite superior saudável para a prática de exercício físico. Ele observa que o ganho maior será sempre de quem largou o sedentarismo e iniciou uma atividade, em relação a quem já está acostumado e passou a incrementar sua escala de exercício. Mas isso não indica que a pratica vigorosa exponha nosso corpo a algum tipo de risco.

– É provável que a a partir de um certo ponto não haja benefícios adicionais. Mas isso ainda não está provado – avalia.

A medicina esportiva estabelece hoje que a dose mínima para se fazer bem à saúde é de 75 minutos semanais de atividade vigorosa, aquela que não nos permite manter uma conversação normal, pois ficamos ofegantes e temos a fala entrecortada. Em caso de atividade moderada, a quantidade mínima vai a 150 minutos semanais.

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Pesquisas contraditórias. Para chegar ao polêmico resultado, os pesquisadores do “Lehigh Valley Health Network estudaram mais de 3,8 mil corredores. Os participantes eram homens e mulheres com idade média de 46 anos. Quase 70% disse que corria mais de 32 quilômetros por semana.

Os cientistas levaram em conta os tipos de medicação ingeridos, pressão arterial ou colesterol altos ou histórico de tabagismo. A pesquisa descobriu que nenhum desses fatores pode ser usado para explicar o porquê de pessoas que correm mais terem expectativa de vida menor.

James O’Keefe, médico que que analisou a investigação para o jornal britânico “Daily Mail”, acredita que os resultados pode ser causados por um desgaste no corpo dessas pessoas.

Os resultados do estudo se contrapõem ao senso comum e a outras pesquisas já realizadas. É o caso de um estudo apresentado na 63ª Sessão Científica Anual da Sociedade Americana de Cardiologia, no último mês de março. O trabalho descreveu que o treinamento de corridas de longa distância pode ajudar a proteger o coração.

Foram estudados 45 corredores amadores do sexo masculino, com idade entre 35 e 65 anos. Cerca de metade tinha corrido três ou mais maratonas em sua vida, enquanto a outra metade havia corrido duas ou menos. Na avaliação após o treinamento, realizada antes da participação na maratona, os corredores apresentaram melhoras apontadas como significativas para alguns riscos cardiovasculares. A lipoproteína de baixa densidade, ou LDL, conhecido como colesterol ‘ruim”, diminuiu 5%, em média, já o colesterol total sofreu redução de 4% e as taxas de triglicerídeos caíram 15%. O índice de massa corporal (IMC) teve redução de 1% e os participantes mostraram melhora na aptidão cardiorrespiratória, com aumento de 4% no consumo de oxigênio de pico – utilizado como marcador para mortalidade cardiovascular.

Outro trabalho realizado no ano passado em Copenhague, na Dinamarca, concluiu que correr uma ou duas horas e meia por semana representa um aumento da expectativa de vida de 6,2 anos para os homens e 5,6 anos para mulheres. O trabalho envolve quase 20 mil moradores da cidade com idade que variava entre 20 e 93 anos.

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