Espaço do Atleta: Relato de Camila Feijó nos 50km da Indomit Caribe

Escolhi começar as minhas provas de 2017 pela Indomit Caribe, na Venezuela, porque, quando estava pesquisando o calendário, achei o cenário muito bonito, super atraente e um lugar que eu não conhecia. Sabia ser uma prova mais plana, sem muitas montanhas, mas não tinha muitas informações do percurso, que foi lançado muito próximo à prova. Tinha finalizado os 80km da Indomit Costa Esmeralda em primeiro lugar e ganhei a inscrição. Tinha ainda dois meses para treinar. Tudo isso somado, me levou a esse desafio.

Foi uma viagem corrida, saindo do Rio de Janeiro até Isla de Coche, com escalas em Lima, Caracas e Isla Margarita. Três aviões e um barco… Praticamente um dia na estrada. Não é o ideal para competir em alto nível, mas é o que dá para fazer e não se torna desculpa nunca.

Veja como foi a preparação de Camila Feijó para a Indomit Caribe

Foram pouco mais de 24 horas de descanso, em um dia pré prova… Retirada de kit, congresso técnico, um trote leve para reconhecimento do terreno… Isso já foi o suficiente para mim. Passei o dia com dor de cabeça. Talvez pela alimentação, totalmente diferente. Nesse dia conheci a Mayra Orozco, a venezuelana que já ganhara uma outra prova nessa mesma ilha, no mesmo percurso. Ela até me passou algumas informações sobre o terreno e o percurso, que já conhecia bem. Percebi que era a adversária com quem deveria me preocupar…

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Para dificultar minha estratégia, o percurso sofreu alterações de última hora. Tenho o hábito de preparar uma “cola” com o gráfico do percurso, com as distâncias entre os postos de hidratação, altimetria e ritmo que devo manter em cada trecho. Nesse caso, esse apoio impresso já não valia muito. E também o terreno não era o que imaginava. Acreditava que correria boa parte na areia, mas era muita pedra e cactos pelo caminho.

A largada estava prevista para às 5h, mas sofreu um atraso de 20 minutos. Durante os seis primeiros quilômetros corremos atrás de um quadriciclo, que dava a direção até o início da marcação. Formamos um pelotão (a Mayra, eu e outra venezuelana, Tanya Pacheco, além de alguns homens) em um ritmo forte.

Fomos juntas até o primeiro ponto de hidratação, por volta do Km 9, onde o percurso ainda era bem plano. Apenas a Tanya parou e eu segui com a Mayra. No Km 12, o terreno começou a mudar. A areia era mais fofa, com uma vegetação na margem da estrada. Ví que a Mayra procurava correr sobre a vegetação. Busquei o mesmo caminho. Mas os cactos e as pedras já começaram a aparecer. Esse foi um dos dois trechos mais difíceis da prova, do 10º ao 17º Km. Nessa parte ela conseguiu se distanciar.

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Nesse momento o calor era muito forte e parei no posto de hidratação para me abastecer de água e molhar a cabeça. Agora a Tanya Pacheco já estava ao meu lado novamente. Seguimos uma longa estrada plana, que começou com asfalto e terminou com areia dura. Foram cerca de mais 10km nessa condição. No final, como consegui manter um ritmo constante, a Tanya ficou para trás novamente.

Para controle da organização, os competidores tinham dois pontos onde deveriam retirar uma pulseira, garantindo o comprimento do percurso. No 27º Km, retiramos a segunda pulseira. Teve início, então, outra parte difícil da prova, que desconhecia. Foram 9  km do que eles chamam de “chichorros”. Um verdadeiro tobogã, em que corríamos para cima e para baixo continuamente. Subidas e descidas de terra com pedras.

No topo da última subida estava o último posto de controle. A partir dali iniciava-se um novo e difícil trecho. A quantidade de cactos era enorme. Uns redondos que entravam pelo tênis, outros altos, que arranhavam as pernas.  Literalmente, os cactos entravam pela sola do tênis e nos pés. Fui obrigada a parar para retirar os espinhos, pois não conseguia mais pisar. Como a musculatura estava fadigada por conta dos “chichorros”, tive câimbras ao sentar. Consegui remover os da sola do tênis., mas não os que entraram nos pés. Tive que voltar a correr assim mesmo. Com câimbras e espinhos.

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Ainda tinha pela frente uma longa descida, com muitas pedras soltas, até chegar à praia, de onde já se avistava o pórtico de chegada. Mesmo com os pés doloridos, ganhei uma energia extra. Fui correndo pela beira d´água até alcançar a “meta”. Logo fui muito bem atendida por massagistas, que com uma pinça retiraram os espinhos dos meus pés.

Uma prova diferente, com um terreno que não estou familiarizada, mas com belo cenário, como a Playa del Amor, com suas falésias. Finalizei na segunda colocação, cerca de 13 minutos atrás da Mayra e sete minutos na frente da Tanya. Queria ganhar, dei tudo, mas, como diz meu treinador, o que vale é a performance. Competi contra uma corredora local que conhecia o percurso e que possui um ótimo nível. Era para ser 50km, mas a organização teve que alterar o percurso de última hora pois tinham muitas serpentes no trajeto. Fechei os 43km em 4h39m.

Tenho que agradecer o carinho dos venezuelanos e aos organizadores da Indomit, que foram muito atenciosos. Soube que muita gente não foi por motivo de segurança, mas, sinceramente, não tive nenhum problema. Foi tudo muito tranquilo. Pelo que estavam comentando, em 2018 haverá uma nova edição, agora em Isla Margarita. Uma prova que me parece bastante atraente para iniciar a temporada.

Estou feliz em saber que dei o meu melhor e que havia muita gente torcendo por mim. Agradeço muita essa transmissão de energia, fundamental pra seguir sempre em frente. Agora é descansar e voltar com foco nos treinos para o próximo desafio, em 1º de abril, na Indomit Pedra do Baú.”

Camila Feijó

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