No Globo: Maior trilha do país, com 180km, Transcarioca é inaugurada oficialmente no Rio

Reportagem do jornal “O Globo:, de 11/2, de Ediane Merola e Gisele Ochana.

Uma espécie de circuito de trilhas já existentes, num total de 180 quilômetros de caminhos ligando Barra de Guaratiba à Urca, passando por rios, cachoeiras, lagos, sítios históricos, os mais preservados trechos da Mata Atlântica e paisagens deslumbrantes. Assim é a Trilha Transcarioca, a maior do país, e que já tem data para ser oficialmente inaugurada: neste sábado. O percurso, demarcado nos dois sentidos, conecta Barra de Guaratiba, na Zona Oeste, ao Pão de Açúcar, na Zona Sul, passando pelos principais atrativos naturais, históricos e culturais da cidade, incluindo o Parque Nacional da Tijuca.

Na inauguração serão lançados um guia de campo, um minidocumentário, além do site oficial www.trilhatranscarioca.com.br, com fotos, mapas, tracklogs no Google Maps e todas as informações necessárias para planejar a caminhada, que na maior parte do percurso é feita dentro das florestas, passando por sete unidades de conservação (UCs): Parque Nacional da Tijuca, Parque Estadual da Pedra Branca, Parque Natural Municipal de Grumari, Parque Natural Municipal da Cidade, Parque Natural Municipal da Catacumba, Parque Natural Municipal Paisagem Carioca e Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca.

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Mapa da Transcarioca

A trilha possui 25 trechos interligados. Acostumado a percorrer algumas rotas da Transcarioca regularmente, o analista de sistemas e guia de turismo Jeremias Freitas fez o trajeto completo no fim do ano passado e aprovou as modificações realizadas pelo caminho. O traçado está sinalizado e conservado, mas ele alerta que trilhas são organismos vivos e precisam de manutenção:

  • Mato cresce e placa pode cair, ser alvo de vandalismo. Mas está tranquilo. A transcarioca é uma junção de várias trilhas já existentes, que foram interligadas – conta Jeremias, que fez a caminhada em oito dias. – Essa é uma trilha de longo curso, não é para iniciantes, pessoas sedentárias. Quem não tem preparo físico deve se organizar para ficar mais tempo, até uns 20 dias.

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Outra dica de Jeremias é sobre a melhor época do ano para percorrer a Transcarioca de ponta a ponta. No verão, segundo ele, o tempo chuvoso, sujeito a raios, torna a aventura mais perigosa. O melhor é aproveitar a Temporada de Montanha, de abril a setembro, época em que o clima fica mais ameno.

 

SEGURANÇA NÃO TERÁ REFORÇO POR ENQUANTO

Em relação à segurança, o guia de turismo lembra que recentemente houve assaltos em trechos da Transcarioca. Os mais visados, segundo ele, são a região do Parque Lage/Corcovado, a área da Cova da Onça e o Pico da Tijuca.

Procurado, o chefe do Parque Nacional da Tijuca, Ernesto Viveiros de Castro, informou em nota que “a Secretaria de Segurança, com apoio da administração do parque, usuários e operadores de turismo, avalia novas estratégias para melhorar as condições de segurança e reduzir ainda mais o risco de assaltos”. Ele disse ainda que “apesar das ocorrências eventuais de assaltos, comparativamente (o parque) ainda é um dos lugares mais seguros da cidade”.

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Mirante da Proa, no Parque Nacional da Tijuca. Foto: Instagram Transcarioca

A Polícia Militar não informou se haverá plano especial para o patrulhamento na Transcarioca. Também em nota, a corporação explicou que a trilha é feita em sua maior parte dentro do Parque Nacional da Floresta da Tijuca, administrado pelo ICMBio. A PM mantém uma Unidade de Polícia Ambiental (UPAM) no Parque Estadual da Pedra Branca, único parque estadual dentro da Transcarioca.

Agentes do Grupamento de Defesa Ambiental da Guarda Municipal atuam nos acessos e em pontos estratégicos da Floresta da Tijuca, Parques da Cidade e da Catacumba e no Monumento Natural dos Morros do Pão de Açúcar e da Urca/Pista Cláudio Coutinho, que integram a trilha. Eles pretendem elaborar dicas de segurança para cariocas e visitantes que quiserem fazer a nova trilha.

ENGAVETADA DESDE A DÉCADA DE 1990

A ideia da Transcarioca nasceu nos anos de 1990, mas ficou engavetada durante mais de uma década. O projeto saiu do papel após os esforços de mais de mil voluntários, incluindo governo, gestores dos parques e diversas instituições.

— A implementação dessa trilha não foi fácil de fazer. Parabenizo a todos por terem alcançado esse objetivo. Uma iniciativa como essa no Brasil significa apresentar ao cidadão paisagens belíssimas que precisam ser conservadas. Que a Trilha Transcarioca seja a primeira de muitas — destaca Ricardo Soavinski, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

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Pôr do sol na Pedra do Telégrafo, em Barra de Guaratiba.  Foto: Instagram Transcarioca

Um sonho coletivo e agora real

Ana Lúcia Azevedo

A Trilha Transcarioca concretiza em terra, pedra e verde um sonho. No início, o sonho era só de um. Hoje é coletivo, trata-se de uma das maiores realizações, se não a maior, da sociedade civil organizada do Rio. Não é ONG, mas foi criada por gente que resolveu pegar na enxada, no sentido literal, para abrir, melhorar e conservar caminhos, ligar florestas, revelar belezas.

A ideia surgiu há mais de 20 anos, quando o montanhista e diplomata Pedro da Cunha e Menezes, hoje no ICMBio, chamou amigos para criar a grande trilha. A inspiração vem de projetos internacionais bem-sucedidos, como a mítica Pacific Crest Trail, que percorre a Costa Oeste dos EUA. No Brasil, não há nada igual.

Embora conte com o apoio e a participação das unidades de conservação e de outros órgãos, a Transcarioca é fruto da dedicação de voluntários, que doam tempo, recursos e disposição. São eles que sinalizam e conservam caminhos, adotam trechos. Pegam no pesado. É uma obra viva e coletiva.

Estão na grande trilha caminhos conhecidos do Pão de Açúcar. Mas há joias dentro da Floresta da Tijuca que pouca gente conhece. Melhor do que ir até a Vista Chinesa pelo asfalto é trilhar o caminho muito mais belo a partir do Solar da Imperatriz. E da Vista se pode chegar à Mesa do Imperador, por um trecho que sobe o morro e atravessa a mata. A partir da Mesa, vale subir a antiga escadaria e entrar na floresta para chegar ao topo do Morro do Queimado e a uma das paisagens mais belas da cidade. É só seguir as confiáveis pegadas que orientam os usuários.

As partes mais desafiadoras da trilha estão no Maciço da Pedra Branca, onde há ruínas históricas, plantações e caminho para as praias mais limpas da cidade. O Morro do Quilombo é uma viagem no tempo. E a floresta do Pau da Fome tem árvores centenárias.

Os obstáculos à Transcarioca hoje não são florestas nem montanhas. O desafio maior é que a cidade garanta segurança aos que buscam seus cartões-postais. E que os visitantes ajudem a conservá-la, sem deixar lixo ou perturbar a mata.

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