Após cirurgia delicada, ultramaratonista Márcio Villar inicia nova fase, correndo 100km no Rei e Rainha do Mar, neste domingo, no Rio

Superação significa: ação de superar; de ultrapassar uma situação desagradável; perigosa; ultrapassar um limite; recuperação; ato de progredir; vencer. Trazendo essas definições das letras frias dos dicionários para a vida real, a história de vida do carioca Márcio Villar seria uma completa tradução da palavra superação. Tudo começou há 15 anos, quando esse carioca, que completa 50 anos no dia 28 de março, com 96 quilos quase “morreu” por ter dado um pique atrás de um ônibus. Esse botafoguense resolveu cuidar da saúde e desde então não parou mais de correr e acumular façanhas, como o recorde mundial de corrida em esteira (827km durante sete dias), e o primeiro atleta do mundo a cruzar a linha de chegada de todas as provas do “BAD135 World Cup”, o principal circuito de ultramaratonas do mundo.

O último ingrediente das diversas superações de Márcio Villar chega ao fim neste domingo. Depois de 10 meses de tratamento de uma doença autoimune (arterite temporal juvenil) e de uma cirurgia na cabeça do fêmur direito, em dezembro, ele retorna às provas para correr 100km na primeira etapa do Rei e Rainha do Mar, entre o Leblon e Arpoador.

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Fiz uma visita ao Márcio em sua loja na Avenida das Américas 3.665, loja 142, no Shopping Barra Square, especializada em material esportivo para corridas, e conversamos sobre essa sua fase atual e também sobre seus planos  para o futuro.

“Será minha 13ª participação no Rei e Rainha do Mar, com 26 transplantes de coração pagos pela Effect (empresa organizadora da prova) no programa Pró Criança Cardíaca. Uma honra enorme e esse será o mais especial de todos. Depois de me curar da doença, colocar uma prótese, voltar a correr pagando dois transplantes só prova que doença nenhuma pode me parar”, afirma o ultramaratonista.

Leia também: O novo desafio do ultramaratonista Márcio Villar: lutar pela própria vida

Blog do Iúri Totti: Qual o motivo da sua cirurgia na cabeça do fêmur?

MÁRCIO VILLAR: Foi devido ao tratamento de uma doença autoimune rara, chamada arterite temporal juvenil. Por causa dela, tive que tomar corticóides em doses maciças para me curar e o efeito colateral deste medicamento afetou gravemente a cartilagem da cabeça do fêmur.

BIT: Isso tudo tem ligação com suas corridas?

MÁRCIO VILLAR: Não. Nada relacionado à corrida. É uma doença autoimune rara, com 20 casos no mundo. Poderia ser com qualquer pessoa e eu fui selecionado.

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BIT: Após bater o recorde de quilômetros corridos numa esteira, sua vida de atleta foi prejudicada por uma doença autoimune e, recentemente, por essa cirurgia. Como foi essa fase longe das provas?

MÁRCIO VILLAR: Foi muito difícil. Acho que 99% das pessoas teriam desistido e abandonado a corrida. Foram 9 dias internado no hospital até controlarem a doença, sentindo dores inimagináveis. Cheguei a passar as senhas do banco para minha esposa, pensando que ia morrer de tanta dor. Para eu reclamar de dor é porque o negocio é feio… rsrsrrs… De abril do ano passado até hoje, por tomar corticóide, houve a necrose da cabeça do fêmur. No dia 23 de dezembro, me internei novamente para colocar uma prótese na cabeça do fêmur. Desde o dia que sai do hospital estou fazendo fisioterapia, musculação, correndo dentro da piscina, transport e, agora, correndo na areia

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Márcio Villar durante sua recuperação pós-cirurgia para a implantação da prótese
BIT: Fraquejou?

MÁRCIO VILLAR: Nunca, sonhava o tempo todo voltando a fazer meus desafios extremos e isso me motivava muito.

BIT:  Você já passou tanto tempo sem correr?

MÁRCIO VILLAR: Nunca , era difícil aceitar.

BIT: Sua força mental sempre foi um ponto positivo em suas conquistas. Como foi trabalhar ela nessa fase?

MÁRCIO VILLAR: Imagina para quem bateu um recorde correndo 827km com dificuldade para caminhar, mancando e cheio de dor. Via as pessoas correndo e eu só olhando. Eu não conseguia nem me abaixar para lavar o pé. Ninguém tem noção pelo que passei. Chorava tomando banho para desabafar. Minha mulher e minha filha foram primordiais, me apoiando nesse momento. Eu ainda na cama do hospital, no dia 23 de dezembro, recebi uma mensagem de um amigo dizendo que um espanhol tinha batido o recorde do Caminho de Santiago de Compostela, de 820 km em 6 dias 14 horas e 49 minutos. Isso foi a motivação que eu precisava. Todo dia, ao acordar, me imaginava correndo e comemorando por ter batido esse recorde. Isso era me dava força para continuar. Correr é o que eu amo fazer e, se eu parasse, iria morrer um pouco de mim.

 

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BIT: O que mais te incomodou nesse período?

MÁRCIO VILLAR: Que não teria mais fazer os desafios para o Instituto Nacional do Câncer (Inca), para onde, no ano passado, arrecadamos 10.310 pacotes de leite. Não teria mais o desafio do Rei e Rainha do Mar, que patrocinou 24 transplantes de coração para crianças no Hospital Pró criança Cardíaca. Isso me dava mais força para me recuperar.

BIT: Agora que você voltou aos treinos, como vai ser sua preparação?

MÁRCIO VILLAR: Faço musculação e fisioterapia todos os dias. Para correr, tenho que me fortalecer muito. Agora o osso está calcificando na prótese e os músculos que vão sustentar precisam estar fortalecidos. O melhor de tudo é que a minha mente, que era o meu forte, depois de tudo que passei, está muito mais forte.

 

BIT: Qual seu próximo desafio?

MÁRCIO VILLAR: Vou correr  100km na areia, neste domingo (12/3), durante o Rei e Rainha do Mar para pagar mais dois transplantes. Mas o meu grande desafio será em outubro, quando minha volta será para valer. Vou para a Espanha bater esse recorde do Caminho de Santiago de Compostela. É simples… rsrsrrs. O que eu fiz em 7 dias na esteira, terei que fazer em 6 dias, subindo e descendo por várias cidades, com uma média 130km por dia. Mas para isso preciso fechar cotas de patrocínio. Das 5 cotas de R$ 10 mil, já fechei duas. Se alguma empresa desejar colocar sua marca na minha camisa, no meu site, facebook e instagran de um recordista mundial, que vai tentar bater outro recorde, pode entrar em contato comigo pelo telefone  (21) 99815-9117.

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Pedro Rego Monteiro, da Effect Sport, organizadora do Circuito Rei e Rainha do Mar, e Márcio Villar
BIT: O que falta no seu currículo de ultramaratonista?

MÁRCIO VILLAR: Falta muita coisa. Sempre surgem novos desafios. Quero muito correr entre Rio e Salvador (1.600km), que tive que adiar por causa da doença. Tenho que dobrar a Arrowhead, nos Estados Unidos, correndo 434km, com 40 negativos, única prova da Copa do mundo de corridas extremas que ainda não dobrei. Também fui convidado para fazer uma travessias entre a Malásia e Singapura, numa ação beneficente  pelas crianças com câncer daqueles países, com 2 mil quilômetros. Isso é muito legal, pois a minha filantropia chegou do outro lado do mundo.

BIT: O que te motiva correr?

MÁRCIO VILLAR: Correr por uma causa. Saber que, com o meu dom, eu posso ajudar a salvar vidas. Nas palestras motivacionais que ministro nas empresas pelo Brasil, vejo pessoas chorando de emoção, vindo falar comigo que eu estou mudando suas vidas, tanto que meu segundo livro o “827,16 km, o tamanho de um sonho” o prefácio é de uma mulher me agradecendo que o meu primeiro livro, “Desafiando Limites”, a ajudou a se curar de um câncer.

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BIT: Correr é…

MÁRCIO VILLAR: Amor, vida, tudo.

BIT: Como andam seus projetos filantrópicos?

MÁRCIO VILLAR: A todo vapor. Além do Rei e Rainha do Mar, que paga os transplantes cardíacos para crianças, continuo com arrecadação mensal de mantimentos para o asilo do Lar Pedro Richard. Estou vendendo produtos com renda total para uma causa de cachorros e gatos abandonados, o “Amigos do Seu Paulo”. Vendendo produtos da Spiridon com a renda voltada para o Projeto Juquinha, que cuida de 150 crianças especiais na cidade paraense de Paragominas. Agora estamos arrecadando tênis usado para serem doados para alunos da rede pública do Rio.

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Márcio Villar é embaixador do Projeto Juquinha, em Paragominas

3 comentários Adicione o seu

  1. Felipe Lopes disse:

    Muito legal o espaço dado ao Marcio ele é um monstro ele não pertence a este mundo, parabéns pela entrevista.

  2. Wagner disse:

    Márcio Boa noite eu so Wagner e jogava bola até o início do ano quando comecei a sentir dores forte fui a um ortopedista e ele constatou que estou com astrose na cabeça do femo devido a remédio que tomar pra dor estou com duvida sobre a cirurgia porque é muito cara estou pensando em fazer pelo sus

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