Relatório do Crea-RJ ‘condena’ Ciclovia Tim Maia, no Rio, por não oferecer condições de segurança

De Fernanda Rouvenat, do site G1.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) concluiu que a Ciclovia Tim Maia, entre o Leblon e São Conrado,  de 3,9km, na Zona Sul do Rio, não apresenta condições adequadas de segurança para os usuários e sugere que ela fique interditada nos meses em que são recorrentes as ressacas no mar, entre abril e agosto. O resultado do laudo foi apresentado nesta terça-feira (28/3).

Em abril do ano passado, um trecho da ciclovia desabou e matou duas pessoas, três meses após sua inauguração pelo ex-prefeito Eduardo Paes. A obra da ciclovia, iniciada em junho de 2014, teve custo de R$ 44,7 milhões.

O Crea-Rj foi intimado pela Justiça, em janeiro. a periciar a obra e apresentar seu parecer. Ao concluir o estudo, a entidade identificou problemas nos pilares da estrutura, como pontos de corrosão.

Após estudos e análises dos projetos e laudos da ciclovia, a comissão de seis engenheiros chegou aos resultados da investigação. O laudo deve ser anexado ao processo.

O trabalho de análise do Crea pegou todo trecho da ciclovia, desde São Conrado até o Leblon, e não somente onde ocorreu o acidente já que, de acordo com o presidente do Crea, engenheiro eletricista e de segurança do trabalho Reynaldo Barros, a comissão identificou necessidade de apresentar outros problemas existentes em todo esse trecho.

Segundo Barros, foram constatadas vários pontos de corrosão em vários pilares, que causam a movimentação inadequada das vigas. Em um trecho que fica depois de onde ocorreu o acidente, por exemplo, também há pontos com desnível e fissuras, além de sinais corrosão.

“A fixação dos elementos metálicos de guarda corpo, de forma geral, apresenta estado de deterioração, gerado pela incompatibilidade de materiais e/ou pela falta de proteção adequada dos elementos metálicos de fixação”, explica o texto do documento.

Para o presidente do Crea-RJ, problemas na realização da obra seriam a causa dos problemas na estrutura. Ele afirma que os membros da entidade se surpreenderam com o desgaste tão acentuado em uma obra tão nova.

Após vistoria do Crea-RJ na Ciclovia Tim Maia, determinada pela Justiça, a entidade encontrou vários problemas estruturais, como corrosão em vários pilares, pontos com desnível e fissuras na pista
Após vistoria do Crea-RJ na Ciclovia Tim Maia, determinada pela Justiça, a entidade encontrou vários problemas estruturais, como corrosão em vários pilares, pontos com desnível e fissuras na pista. Foto de Iúri Totti/Blogdoiuritotti

“Houve problema na execução. É claro que pelas fotos a gente percebe que houve essa execução mal feita. Na questão do planejamento, não entrei no mérito para verificar. Nós analisamos os projetos e o que mostra é que a execução foi comprometida e hoje a ciclovia, que tem nem um ano de operação, já apresenta sinais de desgastes. Nesse planejamento, você tem que considerar a agressividade daquele ambiente, como ventos, salinidade, esgoto. A execução podia ter sido melhor”, afirmou Barros.

O relatório destaca também fissuras no piso da ciclovia, incompatíveis com a idade da obra.

“O piso da ciclovia apresenta estado de fissuração inaceitável. Em muitos casos, denotando padrão de falhas que comprometem o conforto do usuário, incluindo desníveis, e, sobretudo, a durabilidade da obra, o que pode ser observado pela quantidade de fissuras, mesmo que de pequena abertura, por onde penetram agentes agressivos ao concreto e, em especial, às suas armaduras, ocasionando processos de corrosão precoces”, conta o relatório.

O documento conclui que a Ciclovia Tim Maia não apresenta condições adequadas de segurança para os usuários. A recomendação do Crea é que a obra só seja liberada ao uso quando a estrutura e seus elementos complementares estiverem recuperados e reforçados estruturalmente.

O laudo reforça que o que causou o desabamento do trecho da ciclovia não foram os problemas de corrosão e, sim, o impacto da onda, que não estava previsto no projeto.

“Esses problemas que existem, de envelhecimento precoce da ciclovia, não foram eles que determinaram o acidente. O que determinou o acidente foi o impacto daquela onda, em função da característica executiva da obra, em que os tabuleiros eram apenas apoiados”, explicou o presidente do Crea-RJ.

A recomendação do Crea, de acordo com o laudo apresentado, é que a ciclovia fique fechada de abril a agosto, meses em que há maior possibilidade de ocorrerem ressacas. Nesse período, o Conselho acrescenta que poderiam ser feitas as obras de reparo, para que não seja necessário interditar a ciclovia novamente, após esse período, para realizar as reformas sugeridas. Apesar da recomendação de interrupção do trânsito na ciclovia, os integrantes do Crea-RJ destacaram que a decisão de impedir a circulação é da Justiça e do poder público.

“O juiz é que vai decidir isso. Nós estamos recomendando preventivamente, nesse período da ressaca, que pode ou não ocorrer ondas da magnitude daquela do dia do acidente. O ambiente é muito agressivo e se recomenda uma obra de arte especial que já é previsto num padrão de técnica da engenharia civil,” destacou o presidente do Crea.

O laudo feito pelo Crea será encaminhado à Comissao de Ética, que será responsável por decidir sobre os 14 profissionais envolvidos na obra.

 

Entenda o caso. A polícia indiciou 14 pessoas pela queda da Ciclovia Tim Maia, no dia 21 de abril. Os 14 responderão por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar. Duas pessoas morreram no acidente: o engenheiro Eduardo Marinho Albuquerque, de 54 anos, e o gari comunitário Ronaldo Severino da Silva, de 60.

O delegado responsável pelo caso, Alberto Lage, diz ter encontrado erros em todas as etapas da obra. A começar pela licitação, com o projeto básico incompleto. Houve falhas também no projeto executivo, apresentado em partes e já com a obra iniciada. Vinte e sete pessoas foram ouvidas, entre testemunhas e pessoas envolvidas no caso.

Sete indiciados são da GEO-Rio – orgão da prefeitura responsável pelo projeto básico e pela fiscalização da obra. Outros seis indiciados foram responsáveis pelo projeto executivo. A investigação concluiu que eles também não levaram em conta a ação das ondas. Destes, quatro deles são do consórcio Contemat-Concrejato, que construiu a ciclovia. Os outros dois são ligados à Engemolde Engenharia, contratada pelo consórcio para construir pilares e lajes.

Na época, o consórcio Contemat-Concrejato e a Engemolde informaram que não tiveram acesso ao inquérito e não irão se pronunciar sobre o assunto. A Defesa Civil do município e a GEO-Rio também não se manifestaram.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s