Por Sérgio Maurício.

Sérgio Mauricio, o doutor corrida

Há alguns anos, a moda dos tênis de corrida minimalistas veio para bagunçar um pouco a cabeça dos corredores quanto ao que fazer. Muitos aderiram 100% e outros esperaram para ver o que a novidade causaria. Sua proposta é a de melhorar a biomecânica da corrida, reduzindo o pico de impacto com o solo ao facilitar uma aterrisagem com o mediopé ou antepé (parte da frente do pé). Além disso, ajudam no aumento da frequência da passada ao mesmo tempo que reduzem seu comprimento, o que teoricamente também reduz as forças de impacto, prevenindo lesão. Muitos corredores gostaram da ideia e, assim como eu, aderiram à moda.

No entanto, a literatura ainda é muito pobre a respeito dos reais benefícios desse tipo de calçado. Essa semana foi publicado no “American Journal of Sports Medicine” um artigo interrogando se tênis minimalistas são para todos. Sessenta e um corredores, que habitualmente aterrisam com o retropé (calcanhar), sem histórico de lesão recente, foram aleatoriamente separados em dois grupos: um que correria com tênis minimalistas e outro com tênis convencionais. Foi montado um programa de treinamento, com aumento de volume progressivo, durante 26 semanas. Foi avaliada semanalmente a incidência de dor e lesões, assim como a relação delas com o peso do corredor e volume semanal de corrida.

Modelos de tênis minimalistas
Modelos de tênis minimalistas

Dos 31 que utilizaram tênis minimalistas, 16 tiveram lesões, enquanto nos que correram com tênis convencionais 11 dos 30 machucaram. Essa difereça não teve importância estatísica. No entanto, o que mais chamou atenção foi que quando o volume semanal ultrapassava 35km, a incidência de lesão aumentava, assim como quando a pessoa pesava mais que 72,4kg. A taxa foi ainda maior quando o peso excedia 85,7kg.

Podemos concluir então que tênis minimalistas não são para todos. Eles devem ser inseridos com cuidado, principalmente se você é corredor de retropé (calcanhar). O autor recomenda que seja iniciado aos poucos, intercalando com tênis convencionais, e aumentando seu uso aos poucos, não excedendo 1,7km a cada semana. Aconselha ainda, que caso a pessoa opte por correr exclusivamente com esse tipo de calçado, que não ultrapasse o volume semanal de 35km. Ele finaliza dizendo que pessoas acima de 85,7kg devem evitá-los.

Nem toda novidade é boa, e o que foi bom ontem, pode não ser amanhã. A ciência esta aí para que possamos provar, com estudos sérios o que realmente é bom para nós, amantes das corridas.

Bons treinos e boas corridas!

Fonte: Body Mass and Weekly Training Distance Influence the Pain and Injuries Experienced by Runners Using Minimalist Shoes – AJSM 2017; pp. 1162–1170

SÉRGIO MAURÍCIO é ortopedista, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho e da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Ele também é maratonista e triatleta