APTR, NUNCA MAIS!

Há quatro meses venho treinando para fazer APTR Videiras 55km e ontem (29/4), às 2h15, estava de pé, pronta pra subir a Serra. Sabia que seria uma prova dura, mas não do jeito que foi.

Percurso mal sinalizado e definido na última semana já mostrava o que seria a prova. Fora o despreparo dos stafs e para algumas quilometragens, como 75km e 119km, faltou posto de hidratação/comida. Pensem no caos.

Já na largada houve erro na marcação das fitas e toca correr de um lado para o outro… os que estavam na frente sofreram mais para tentar voltar as suas colocações. Choveu do começo ao fim.

Logo na largada tínhamos que subir um morro quase igual ao do Cuca – definido na última hora -, só ali perdi mais de 1h30. Acho que foram 5km/7km. Como subir um morro daquele com o corpo frio? Não corremos nada antes.

Havia um corte com 5h e outro com 8h de prova. Passei pelo primeiro corte com 20” de folga, descontados os 5” do tempo que parei para comer e reabastecer a mochila de hidratação.

Bem, depois disso foi só ladeira abaixo, aliás, acima. Era hora do temido Morro do Cuca. Pensem num morro muito alto e você na chuva há mais de 6h e com aquela neblina cobria tudo… A sinalização era um zigzag infernal. Pedra escorregadia por conta da chuva e do limo.

Depois que consegui descer daquele lugar corri mais um pouco até o ponto de abastecimento e ouvi as pessoas dizerem: “Estamos cortados!”.

O Staf falou o mesmo pra mim com 8h52 de prova.
“Não adianta. Tá cortada!”
Eu falei: como assim se o tempo limite é de 12h?
“Aqui você ainda está no km38 e não vai dar tempo de completar dentro do tempo limite e tem mais dois morros pra você correr.”
– Não quero saber. Vou completar. Vim pra fazer 55km e vou terminar.

Pior decisão que tomei.
Mata fechada, escura, chuva que não cessava, muuuito frio e já sentia com força o cansaço. Meu único medo era ficar ali dentro quando anoitecesse. No meio do morro encontrei três corredores do 55km, dois do 75km e mais dois do 119km.
A temida noite chegou, não enxergava a sinalização.. me desesperei.

Havia uma mulher no meu pace com uma lanterna pifada, dependente e que não parava de me perguntar às coisas. Foi cruel. Nunca dei tanto fora em uma pessoa numa prova. Chega um momento que você não quer ouvir a respiração das pessoas, que dirá responder. Caso você leia esse texto, aprenda: Silêncio! Correr e falar não dá. Seja independente. Carregue suas coisas e tome conta de você.

Por fim, depois de 2h40 rodando, apareceram três stafs para o resgate. Um deles foi o Ramon que fez a minha cabeça para desistir (desisti com 11h15 de prova). Eu falei que ia até o fim já que estava no km49, foi quando ele me disse que teve um erro na marcação e a minha distância tinha passado para 64… . Sentei ao lado dele no carro, ele falando sobre o que tinha acontecido e as minhas lágrimas descendo… Haviam outras pessoas no carro, até um menina com hiportemia.
Naquele momento eu tremia e não conseguia nem pensar direito.
Até o Centro vi vários guerreiros correndo pela estrada até o fim. Não desistiram. Uns andavam, outros corriam, uns choravam, como foi o caso do Rafael de Valença.

Quando cheguei à cidade vi aquele mundo de gente REVOLTADA. Até a polícia foi chamada para prender o Adevan.
Minhas amigas foram comigo até o carro para eu trocar a roupa o quanto antes. Tremia sem parar. Tomei um café e fiquei junto com todos esperando os outros corredores chegarem.
Foi tenso. Foi triste. Foi desumano. Foi irresponsável.

Quase todos os meus amigos do 55km e 75km foram cortados.
Só pra constar: 55km passou para 64. 75km passou para 90km e 119km passou para 132km.

Sai de lá por volta de 20h30 e ainda faltavam muitos corredores pra chegar. Vários ainda estavam no morro do Cuca à espera do resgate.

Claro que a APTR será acionada judicialmente. Quase todos os corredores vão se juntar e mover uma ação contra o que ocorreu ontem. Isso não pode continuar acontecendo. Esses caras tem que ser responsabilizados pela vida das pessoas. Pedir termo de responsabilidade e atestado médico não os isenta da responsabilidade com a vida do outro.
Vi mulheres e homens desesperados à espera de informações dos que ainda não haviam chegado. Gente, só estando lá pra ver e sentir o clima pesado.

Amigos corredores, caso vocês tenham amor a vida de vocês, não façam mais prova da APTR. Ela já foi uma organização, sim. Eu mesma já cansei de elogiar, mas, agora, é uma DESorganização. Eles começam a crescer, ganhar nome e perdem completamente a qualidade.

Correr é algo maravilhoso, mas morrer por causa disso não é. Tenham respeito com a vida de vocês já que esses caras não tem.

Hoje, sinto dores absurdas, além de estar toda lanhada e roxa, mas foi bom pra eu aprender que corrida não é tudo. Não sei se voltarei a fazer provas trail longas. É um caso a se pensar com muita responsabilidade. #adevannuncamais

Rose Novaes

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