Espaço do Atleta: Rodrigo Richard nos 55km da APTR Ultra de Videiras

Antes de iniciar, quero deixar claro que o relato a seguir exprime apenas os fatos por mim vivenciados participando dos 55 Km da APTR Ultra de Videiras.

No último sábado estive no Vale das Videiras para participar, pelo segundo ano consecutivo, da APTR. Ano passado foram 70Km e este ano resolvi optar pelos 55Km. O perfil altimétrico da prova já me instigava e a alteração comunicada pela organização na semana da prova me deixou ansioso para que tudo começasse logo. Afinal, uma prova que prometia 57Km e mais de 3.500m de desnível positivo é fato raro no Brasil. Sentimos muita falta destes estímulos como preparação para provas no exterior.

Às 7h03m, a contagem regressiva começou em 10 segundos e já estávamos em movimento. Com quase 1km de prova, em um trecho rápido, passamos direto por uma bifurcação à direita, mas logo percebemos o erro e voltamos ao trecho original. Este contratempo atrasou um pouco os líderes, pois era uma travessia de rio, que ficou bem congestionado. Passado este trecho, começamos uma subida lindíssima e, ao mesmo tempo, duríssima. Foram cerca de 5km com mais de 900m de ascensão. No topo, o coração pulsava forte, mas era o momento de dar meia volta e descer. Uma descida técnica com trechos de barro, lama e muitos tocos. Exigiu atenção total dos atletas.

Com cerca de 13km, estávamos passando novamente pelo Centro de Videiras e indo para um trecho de estradão com sobe e desce constante. Depois de mais 12Km, retornamos ao coreto da Praça Central, onde se encontrava nossas drop bags e podíamos comer uma quentinha de purê com carne. Preferi me alimentar com que tinha levado. Me hidratei e após poucos minutos segui. Neste momento se juntou a mim o amigo Breno Braga. Fomos seguindo por cerca de 3km de asfalto até a entrada de onde, ao meu ver, a prova começava: a subida do morro da Cuca.

Logo no início, o Breno estava bem melhor e seguiu. Comecei a subir, fazendo muita força, usando os bastões de caminhada. Quase no alto da montanha encontramos o amigo Pablo Simoneti, que não estava na competição, mas oferecia apoio aos atletas com diversas frutas. Logo a frente, o grande fotógrafo Wladimir Togumi, que estava lá com toda aquela chuva e frio desde a madrugada. Mais alguns metros à frente, atingimos uma grande área de pedra. A neblina estava muito forte. Era difícil seguir as fitas de marcação do percurso. Toda atenção e calma eram necessárias.

Passei por este trecho e logo começou um longo downhill para o posto de controle do Malta. Chegando lá, o cansaço já apertava, o frio aumentava. Parei, me alimentei bem, me hidratei. Reclamei que o posto originalmente prometido para o Km 33 estava quase no Km 38. Os staffs foram super atenciosos. Me incentivaram, encheram minha mochila de hidratação e me ofereceram diversas opções para me alimentar. No final ainda brincaram, falando que eu estava perto do líder. Ele tinha passado “somente” há cerca de 1 hora….. rssssss ……

Comecei a subida do Malta. Subida dura em mata fechada, com muitos obstáculos. Muito legal mesmo. Terminada esta subida, começava uma descida para o trecho final da prova. Nesta hora, chegávamos por uma estrada de asfalto e apenas os atletas de 55km deveriam entrar em um condomínio e fazer uma dura subida de cerca de 300m  para então, sim, chegar no pórtico.

Quando perguntei a distância para chegada e ouvi 2,5km, senti um alívio. Entretanto a informação não era precisa e foram cerca de 7km a mais até o final. Este trecho é bem duro com subidas bem fortes e uma descida em single track por uma trilha muito bacana. Este foi o único trecho da prova que me perdi, mas por pura falta de atenção, pois existia um punhado de fitas na entrada da trilha. Era o cansaço em nível máximo. Quando cheguei no asfalto novamente senti um grande alívio e felicidade. Olhava o relógio e ele marcava 63Km e 3.550m de ascensão. Cruzei o pórtico e só tinha um pensamento: como havia me divertido!!! Foi demais!!!

O que posso falar desta prova. O percurso me surpreendeu demais. Duríssimo. Um dos mais difíceis que já enfrentei. Erros aconteceram? Sim. No meu ponto de vista, o maior deles e que desencadeou todos os outros, foi a mudança de percurso na semana da prova, pois a tornou muito mais dura e, consequentemente, o tempo para sua conclusão subiu muito. As partes altas no final da prova, onde grande parte dos atletas passou à noite, não estava preparada com marcações reflexivas que facilitariam a visualização.

Além disso, outro ponto negativo foi a falta de calibragem da quilometragem dos postos de abastecimentos. Alguns com diferença  de até 4km em relação ao divulgado. Isto, tanto para os que buscam performance, quanto para aqueles que estão iniciando na modalidade, é muito ruim, pois acaba com um planejamento de alimentação e hidratação.  Ao meu ver, estes dois pontos aliados com uma necessidade de aumento do efetivo de staffs (preparados) no percurso são os pontos negativos que posso apontar.

Fora isso, me diverti bastante. Fui desafiado pelo percurso igualmente belo e duro. E tenho a certeza que as críticas devem ser feitas para que todos ganhem: atletas, organizadores e, sobretudo, o esporte que tanto amamos: o trail run!! Temos um lugar lindíssimo, um percurso desafiador e, com os ajustes necessários, pode se tornar uma das grandes provas do Brasil.

Saio da APTR Videiras com a certeza que devemos treinar cada vez mais para que provas com nível de dificuldade elevado sejam encaradas sempre com o mínimo de segurança e conforto. Porque, afinal de contas, o que vale no final é a diversão e a satisfação pessoal.

Rodrigo Richard

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