Costumo falar que fazer triathlon é mais do que praticar um esporte, é um estilo de vida. E isto pode ser aplicado a qualquer atividade esportiva, pois tudo depende da maneira que encaramos o que nos propusemos a enfrentar. Seja surfar uma onda, dar um “rola” no tatame ou correr 5km… não importa a medalha no pódio, importa como a gente curte a jornada e traz algo de positivo daquela experiência para nossa vida.

No meu caso, já são 27 anos praticando triathlon e, desde minha primeira prova em 1990, num sprint triathlon realizado em frente à extinta Sorveteria “Sem Nome” em Charitas, Niterói, até o recente UB515 Ultra Triathlon, terminado no início de maio no Recreio dos Bandeirantes, o sentimento de amor ao estilo de vida que adotei só cresceu.

Por mais que hoje em dia a vida tenha mudado, com muito mais compromissos familiares e profissionais, eu simplesmente não consigo abrir mão do triathlon. Pelo contrário, desde que minha filha Beatriz nasceu, há três anos, a vontade de praticar só aumentou. Poder educá-la através de exemplos positivos me motiva a cada dia, e o UB515 me ajuda demais neste processo. A ideia não é que ela vire uma atleta profissional, mas que ela entenda o valor da prática esportiva incorporada à nossa rotina, que veja como simplesmente acordar cedo para dar uma corrida já nos proporciona disposição para o resto do dia, ou que pedalar com os colegas pode ser também uma bela hora para interagir com eles.

Meu amigo Iúri Totti me pediu para fazer um relato de como foi minha segunda experiência num triathlon da distância Ultraman – 10km de natação, 421km de ciclismo e 84,4km de corrida – e pensei… pensei… como começar a contar tudo? Escrevo sobre os meses de treinamento? Talvez possa iniciar desde a natação em Ubatuba, passando pelas intermináveis subidas da BR 101 e da Serra do Piloto, até cruzar a linha de chegada no Recreio. Entretanto, toda hora que lembrava pelo que passei, vinha à mente a imagem da Bia, sorrindo no colo da mãe, no final da Estrada do Pontal, onde eu já estava com 50km de corrida. Não esperava que elas estivessem ali, pois ainda faltava um bom tempo para a chegada e sei como isso é cansativo para as crianças mas, mesmo assim, ela estava curtindo, olhando nos meus olhos feliz da vida, e, assim, foi até o final, me encontrando em outras partes do percurso e me enchendo de ânimo.

Fazer um Ultraman é um misto de dor e prazer o tempo todo. Tanto em 2015 quanto este ano eu disse pra mim mesmo durante a prova: “Nunca mais eu volto! Minha vida hoje não comporta mais isso!” Mas como escrevi no início, é mais do que completar uma competição esportiva, é meu estilo de vida, é uma peça que se encaixa perfeitamente no meu quebra-cabeça onde a Aline e a Bia são as peças mais valiosas, então… não tem como falar que foi o último! Eu não tenho tatuagem, mas meus amigos que têm falam que dói muito para fazer, só que depois esquecem da dor e já visualizam outra, e mais outra, e mais outra… tipo o UB515.

Ao final desta jornada, uma palavra que não me canso de repetir: Obrigado! Obrigado aos meus amigos Alvaro Ferreira e Gustavo Togi, que foram meus staffs e me acompanharam em todos os dias do evento, não deixando faltar nada, se preocupando o tempo todo com minha integridade física, me dando força e compreendendo minhas limitações. Obrigado ao Daniel Gaspary e Edu Amaral, que entraram no time no dia final e ajudaram muito durante a dupla maratona, me proporcionando ritmo e ânimo quando a fadiga geral se instalou. Obrigado aos meus fisioterapeutas, Pablo Marinho e Fabiana Cunha, que trataram das minhas dores com competência e gentileza, me dando segurança para poder treinar. Obrigado ao meu nutricionista, Marcus Ornellas, que me orientou para o que eu mais queria durante a prova: não passar mal! Obrigado aos meus alunos, que treinaram comigo e foram me dar força pelo percurso. Obrigado ao meu treinador, Alexandre Ribeiro, um irmão que o triathlon me deu e que me inspira sempre a ser um homem melhor, um pai melhor. Obrigado aos irmãos Luna, Alexandre e Andrius, que confiaram em mim para trabalhar na equipe de produção do UB515 e se preocuparam comigo durante todo o processo. Obrigado à Dona Silvia Cecilia, minha mãe, que sempre achou que triathlon era “coisa de maluco”, mas nunca, jamais, se opôs que eu praticasse, mesmo quando era jovem e pedalava pelas madrugadas do Rio de Janeiro. E meu muito obrigado final à minha esposa Aline, que é quem está comigo no dia a dia, acompanhando minha rotina, torcendo por mim, entendendo minhas ausências e o principal, cuidando de nossa maior riqueza, a Beatriz.

Marcos Dantas é jornalista e técnico do CTE – Centro de Treinamento Endurance