Por Demétrio Vecchioli, do UOL

Batendo na tecla da “meritocracia”, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) resolveu endurecer os critérios de convocação para o Mundial deste ano. Também limitou o acesso dos atletas ao Bolsa Pódio, beneficio oferecido pelo Ministério do Esporte a partir de indicação da confederação. A primeira grande consequência disso é que o melhor maratonista do país, Paulo Roberto de Paula, 15.º colocado nos Jogos Olímpicos do Rio, não vai para o Mundial nem receberá a Bolsa Pódio. Ele promete ir à Justiça para obter o que julga ser seus direitos.

Depois de levar 67 atletas para os Jogos Olímpicos do Rio, convocando todos que alcançaram o índice exigido pela Federação Internacional (IAAF), o conselho técnico da CBAt decidiu que, neste novo ciclo olímpico, a nota de corte será mais alta. O índice segue sendo o internacional mas só será convocado quem estiver entre os 40 primeiros do “ranking olímpico” (que considera no máximo três atletas por país) durante o período de classificação. No caso das provas de fundo (maratona e marcha atlética 50km), o corte é o 50.º lugar.

Paulo Roberto de Paula foi 15.º nos Jogos Olímpicos do Rio, completando a prova em 2h13min56s. O tempo, porém, o colocou no 298.º lugar do ranking mundial de 2016, atrás de uma infinidade de quenianos, e em 57.º no ranking olímpico. Por isso, não foi convocado. “É uma regra que foi discutida pela comunidade, aprovada pelos técnicos. Nós vamos trabalhar com base na meritocracia”, explicou ao blog Antônio Carlos Gomes, superintendente de alta performance da CBAt, ontem, durante uma coletiva de imprensa na sede da entidade. Por conta dessa linha de corte, também nenhuma mulher foi convocada (apesar de três terem índice) e o Brasil não estará presente nas maratonas do Mundial de Londres, em agosto.

“Eles estão sendo injustos porque eu fui oitavo em Londres, na minha primeira Olimpíada. Fui para o Mundial em 2013 e fui sétimo colocado. Depois, em 2015, só não fui porque machuquei. Eles (a CBAt) estão dificultando minha ida porque sabem que vou brilhar. De 2012 até hoje sou o mais constante”, diz Paulo, que ainda reclama que, no ano passado, Solonei Gomes foi “imunizado”, , conseguindo vaga no Rio-2016 por ter sido Top 20 (19.º colocado) do Mundial de 2015. Paulo não obteve o mesmo benefício graças ao resultado olímpico – depois disso, só correu mais uma prova, em Viena, no mês passado.

A coletiva foi transmitida pela página da CBAt no Facebook e assistida por Paulo Roberto e seu irmão gêmeo e treinador, Luiz Fernando de Paula Almeida. As declarações de Antônio Carlos deixaram os gêmeos irritados. É que, durante a coletiva, o superintendente também argumentou que Paulo Roberto só não foi incluído na Bolsa Pódio porque ele mesmo não se inscreveu. Na verdade, quem faz a indicação do atleta para o benefício é a CBAt, que não pediu ao Ministério uma bolsa para o maratonista, que se encaixa no critério de ter sido Top 20 da principal competição esportiva do ano anterior. Depois, já fora das câmeras, a CBAt alegou que o Ministério do Esporte não aceitou indicações a partir dos resultados do Rio-2016, apenas pelo ranking.

Mas não é bem assim. Nono colocado nos Jogos do Rio, Altobeli da Silva foi só o 56.º do ranking mundial de 2016 e, mesmo assim, foi aceito no Bolsa Pódio. Enquanto isso, Higor dos Santos, 20.º do ranking mundial do salto em distância e Mahau Suguimati, 20.º dos 400m com barreiras, ficaram sem bolsa, por não terem sido finalistas olímpicos. Augusto Dutra também não foi e, após fechar o ano no 18.º lugar do ranking do salto com vara, foi beneficiado pela bolsa.

Durante a coletiva, os dirigentes da CBAt afirmaram que sugeriram o nome de Mahau ao ministério em 21 de fevereiro, mas a pasta recusou o benefício. A assessoria de imprensa da entidade, porém, havia distribuído aos repórteres um um papel com os nomes indicados naquela reunião e lá não constava o do barreirista. De acordo com a própria assessoria, ele só foi ser indicado na semana passada, quando o Ministério do Esporte analisou o ranking de 2017. Aí, já não havia porque incluir Mahau.

Em outra decisão polêmica, o Ministério do Esporte, por sugestão da própria CBAt, deixou de considerar os atletas dos revezamentos para o Bolsa Pódio. Em nota, a pasta explicou que, em Portaria de 2013, o ME entendeu que são consideradas modalidades individuais “aquelas em que o atleta inscrito não possa, por motivos técnicos, ser substituído durante a competição e cuja classificação oficial seja apresentada de forma nominal”. Essa nova interpretação impede que os atletas tenham acesso à bolsa por resultados do revezamento.

A consequência disso tudo é que, se até os Jogos do Rio o atletismo tinha 27 atletas com Bolsa Pódio, agora só seis são beneficiados: Darlan Romani, Geisa Arcanjo (peso), Caio Bonfim, Erica Sena (marcha atlética), Luis Alberto (decatlo) e Wagner Domingos (martelo). Augusto Dutra, Thiago Braz (salto com vara), Altobeli (3.000m com obstáculos) e Talles Frederico (salto em altura) também foram aprovados e deverão entrar na próxima lista. Ainda assim, o número de beneficiados será baixo: 10.

FORA DO MUNDIAL? – Outra polêmica parece estar resolvida: a convocação de Jonathan Rieckman para o Mundial na marcha atlética 50km. Após ele questionar a entidade por que ficou fora da primeira convocação anunciada, a CBAt alegou que ele não havia ficado entre os 50 melhores do mundo, como determinava o critério. Na verdade, entretanto, o catarinense foi o 47.º do ranking olímpico.

A CBAt admitiu a falha, mas ainda não anunciou a convocação de Jonathan para se unir a Caio Bonfim. É que a entidade olhou o ranking mundial de 2016 e só encontrou um resultado do marchador, feito em março de 2016, fora do período de classificação. “Esqueceu” que ele havia corrido abaixo do índice nos Jogos Olímpicos do Rio, com uma marca que o coloca em 47.º no ranking olímpico.