Como informação não faz mal, ainda mais quando se trata de saúde e qualidade de vida, reproduzo aqui uma reportagem de Flávia Milhorance, publicada no Globo, há quatro anos, sobre os benefícios da caminhada na vida das pessoas.

Eles não correm maratonas, não costumam treinar de segunda a segunda, não se exercitam por horas a fio num dia e, ainda assim, viverão mais e melhor do que os sedentários, mesmo se tiverem uns quilos a mais. Aquela velha desculpa de que é preciso uma atividade física intensa para notar alguma melhora na saúde não se sustenta com a publicação, no periódico “Plos Medicine”, de um amplo estudo que reuniu dados de cerca de 650 mil pessoas de diferentes países, e apontou que apenas 75 minutos semanais de caminhada são o suficiente para aumentar a expectativa de vida após os 40 anos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda um mínimo de 150 minutos semanais de atividade moderada, o que equivale a uma caminhada numa passada rápida. Mas este estudo, coordenado por institutos da Europa e Estados Unidos (entre eles, a Escola de Medicina de Harvard), vem mostrar que metade disto já significa um ganho de 1,8 ano na expectativa de vida, se comparado ao indivíduo inativo. Adotando a orientação da OMS, a vantagem pode ser de até 4,5 anos.

— É claro que aumentando a quantidade, os benefícios aumentam, mas é muito importante desmistificar a ideia de que “já que eu só consigo pouco, então não adianta fazer”. Qualquer quantidade vale a pena. O corpo humano é projetado evolutivamente para a atividade e nosso organismo parece funcionar melhor quando somos ativos. A outra opção, que é o sedentarismo, é desastrosa — comentou o professor de educação física Marcelo Cabral. — Quando se fala em exercício e mortalidade, é importante que se entenda que o exercício obviamente não impede a morte, ele somente evita que ela ocorra precocemente.

O estudo também mostra em quais casos é possível perder alguns anos na expectativa de vida. Por exemplo, um magro, porém inativo, pode perder quase cinco anos. Se ele ainda tiver sobrepeso, com índice de massa corpórea (IMC) acima de 35 kg/m², a perda é de 7,2 anos. Por outro lado, se ele compensar com atividade física, a expectativa de vida á mantida, sem perdas.

— É mais perigoso ser sedentário com peso normal do que fisicamente ativo e gordinho — avaliou o diretor da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), Cláudio Gil.

Cláudio Gil também redime os “peladeiros” de final de semana. Até mesmo aquele futebol de atletas com barriga de chope pode trazer benefícios.

— Qualquer coisa que se faça é melhor do que nada. É claro que isto misturado a muito sol, cerveja e churrasco pode não fazer bem. Mas um estudo da Escandinávia mostrou que os chamados “weekend warriors”, que praticam esporte esporadicamente, geralmente no fim de semana, já têm uma saúde melhor — explicou Gil. — E o Rio é maravilhoso para atividade ao ar livre, chove pouco, não tem muita desculpa além do calor.

Se não é a pelada, um exemplo parecido e que se inseriu na cultura carioca é o futevôlei.

— Jogamos há uns dez anos, sempre no final de tarde, para ficar perto do mar. Dá disposição, aumenta a autoestima. É um estilo de vida — comenta Diego Delarue, de 30 anos.

"É mais perigoso ser sedentário com peso normal do que fisicamente ativo e gordinho", diz o diretor da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), Cláudio Gil.
“É mais perigoso ser sedentário com peso normal do que fisicamente ativo e gordinho”, diz o diretor da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), Cláudio Gil.

E para iniciar a prática de exercícios vale (quase) tudo. Marcelo Cabral orienta começar pelo mais simples: uma caminhada, sem muito esforço. Nada de procurar uma atividade longe de casa, o que só vai desmotivar quem já não tem muita disposição. Uma dica é arrumar companhia:

— Isso reforça o compromisso e deixa o exercício mais prazeroso.

O programador Patrick Paranhos e o comerciante Roberto Augusto Barbosa seguem a sugestão.

— Fazemos uma corrida rápida quase todos os dias na Praia de Ipanema. Outras vezes jogamos vôlei também. Um anima o outro — conta Patrick.

Depois de ultrapassar a barreira do sedentarismo, a atividade começa a se tornar prazerosa. O estudante Hugo Santos, de 18 anos, acabou de fazer vestibular, e enquanto espera os resultados dos exames, em vez de ficar à toa, descansando, prefere a prática do esporte, que vai do surfe, passa pela bicicleta e termina no slackline.

— Até força bastante o abdômen e a perna, mas estou aqui praticando pelo lazer mesmo — afirma.

Segundo Marcelo Cabral, estima-se que mais de 60% das mortes no mundo sejam decorrentes de doenças crônicas que poderiam ser prevenidas ou atenuadas pela atividade física regular. Entre alguns dos benefícios mais conhecidos estão prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer.

Inclusive, a atividade física também aumentou, segundo o estudo, em até 6 anos a expectativa de vida daqueles com histórico de problemas do coração; e em 7,5 anos, de câncer. Entre os ex-fumantes, o ganho chegou a 5,5 anos contra 3,5 dos que continuavam fumando. Apesar das possibilidades de ganhos, a tendência é a oposta.

— Há uma projeção que a geração atual pode ser a primeira com uma expectativa de vida inferior a de seus pais devido ao estilo de vida moderno, em que a inatividade física é uma das principais características. — diz Cabral.

Coordenado pela pesquisadora I-Min Lee, da Universidade de Harvard, o estudo reuniu seis bancos de dados de diferentes países, totalizando 654.827 pessoas, acompanhadas por dez anos. A atividade física foi categorizada pelo equivalente metabólico (MET), ou seja, número de calorias que um corpo consome em repouso. Numa velocidade de 80 metros por minuto num período de uma hora, o indivíduo gasta, em média, 3 METs/hora.

Pelo estudo, os maiores ganhos na expectativa de vida ocorreram com 15 METs/hora por semana (300 minutos de caminhada rápida). Mas também houve resultados positivos em 7,5 METs (orientação da OMS, de 150 minutos) e até em 3 METs.