Na Folha de S.Paulo: Minha história – Primeira mulher da Maratona de Boston revolucionou o esporte

A “Folha de S.Paulo” publicou nesta segunda-feira (26/6) na coluna “Minha História”, uma entrevista de Guilherme Seto com Kathrine Switzer, primeira mulher a correr a Maratona de Boston. Compartilho aqui o texto.

“Resumo Primeira mulher a correr a Maratona de Boston com uma inscrição oficial, Kathrine Switzer, 70, voltou a disputá-la 50 anos depois em 17 de abril de 2017. Em 1967, ela foi perseguida pelo diretor da prova, que tentou agarrá-la e tirar o número 261 de suas costas. A imagem de Kathrine sendo acossada tornou-se icônica e transformou-a em uma conhecida defensora da igualdade de direitos entre homens e mulheres. As mulheres só começaram a correr oficialmente a Maratona de Boston em 1972.

Em 1967, eu não estava tentando ser diferente, apenas queria correr algumas boas milhas. Eu estava treinando bastante e estava me sentindo muito bem. A cada dia corria um pouco mais. Três semanas antes da Maratona de Boston, completei 21 milhas [cerca de 33 quilômetros; atualmente a prova tem 42 quilômetros] com o meu técnico, Arnie Briggs, que desmaiou. Logo ele, que dizia que mulheres não conseguiriam participar de maratonas por serem muito frágeis.

No dia da prova, 19 de abril, estava confiante. Cheguei usando top, shorts, batom: estava feminina e queria estar bonita. Mas então ficou frio, começou a chover e os competidores vestiram todas as roupas que tinham à mão. Coloquei calças e blusa de moletom, fiquei desapontada e parecida com todos os demais.

Ao lado de outros 700 competidores, estava empolgada. Tinha na minha cabeça que não seria a primeira mulher a completar a maratona, até porque outra havia feito isso no ano anterior [Roberta “Bobbi” Gibb, sem inscrição oficial]. Eu só queria correr e mostrar a todos que as mulheres eram capazes, sim, de participar da prova até o fim.

Kathrine Switzer com a medalha da Maratona de Boston 2017
Kathrine Switzer com a medalha da Maratona de Boston 2017

Nas primeiras milhas, estava me sentindo feliz. E então, no caminhão onde ficava a imprensa, os jornalistas começaram a provocar o diretor da prova, Jock Semple, dizendo coisas como “tem uma garota na sua corrida”. Ele se irritou e passou a me perseguir.

“Saia da minha prova”, ele berrava, e tentava arrancar o número das minhas costas. Meu técnico começou a gritar para que me largasse. Semple insistiu, e então meu namorado acertou-o com o ombro, ele caiu e foi deixado para trás.

As milhas seguintes foram vergonhosas e assustadoras para mim. Eu me sentia mal por ter sido exposta daquele jeito. Mas não poderia deixar que dissessem que as mulheres eram muito fracas para chegar até o fim de uma maratona, ou que queríamos mas não conseguiríamos. Precisava alcançar a linha de chegada.

O começo de minha vida como corredora se deu quando eu tinha 12 anos de idade. Meu pai [o coronel do Exército Homer Switzer] transformava tudo em uma competição. Era assim que ele conseguia que eu fizesse tarefas. “Duvido que você consiga cortar a grama mais rápido que eu”, e eu ia lá e acelerava o passo para cumprir o que quer que ele pedisse o mais rápido possível. Assim ele me incutiu um espírito competitivo.

Momento histórico: o diretor da Maratona de Boston,  Jock Semple, tenta retirar Kathrine Switze, mas o namorado dela  impede
Momento histórico: o diretor da Maratona de Boston, Jock Semple, tenta retirar Kathrine Switze, mas o namorado dela impede

Uma volta na minha casa dava mais ou menos uma milha, e era em torno dela que eu treinava corrida. Cada volta a mais na casa era um cinturão da vitória. Cada milha significava um passo a mais a caminho do empoderamento.

Nessa época, ainda adolescente, estava lendo J.D. Salinger, e.e. cummings, T.S. Elliot. Por inspiração neles, assinava K.V. Switzer quando escrevia algo. Aos 20 anos, aluna de jornalismo na Universidade de Syracuse, usava essa alcunha em meus textos. No formulário de inscrição para a maratona, foi assim que coloquei meu nome, e isso fez com que ninguém percebesse que se tratava de uma mulher. Mas não tive a intenção de me passar por um homem em nenhum momento.

Desde aquele dia, correr virou uma carreira para mim. Disputei a Maratona de Boston mais oito vezes, ganhei a de Nova York (1974). Sou comentarista da Maratona de Boston na televisão há 37 edições consecutivas.

Quando estava com 62 anos, participando de eventos sobre corrida e empoderamento feminino, diversas mulheres da minha faixa etária começaram a me contar suas histórias de superação, ou seja, como elas venceram a depressão; como escaparam de relacionamentos abusivos; como tomaram controle das próprias vidas -tudo isso por meio da participação ativa em corridas, muitas delas organizadas pela minha ONG, 261 Fearless [“destemida”, em inglês]. 261 é o número que estava na minha placa de identificação em 1967, e que o diretor da prova tentou arrancar.

Ouvindo-as, comecei a ficar com inveja, e decidi que deveria voltar a correr. Participei, então, das maratonas de Atenas, Berlim, Nova Zelândia, entre outros percursos longos pelo globo. Anos depois, em 2017, resolvi que participaria uma vez mais da Maratona de Boston, 50 anos depois de tê-la completado pela primeira vez. Fiquei curiosa para saber se seria capaz de chegar ao final dela depois de tanto tempo.

O choque de diferenças foi extremo. Fui homenageada e dei o tiro de largada. Na linha de saída, milhares de mulheres ao meu lado. Não havia gritos de desincentivo ou mesmo ameaças; só havia apoio. Centenas de pessoas levaram cartazes com meu número, o 261.

Os 50 anos entre as minhas participações foram revolucionários. As sociedades mudaram com as transformações feitas pelas mulheres. Organizei uma corrida no Brasil no final da década de 1970 da qual mais de 10 mil delas participaram. Hoje, há mais mulheres que homens correndo nos Estados Unidos. A corrida foi transformada nas últimas décadas. Ela foi, e é cada vez mais, uma celebração da liberdade das mulheres para as novas gerações.

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