Após 5 meses de tratamento de uma canelite crônica, com 70kg (altura 1,68m ), iniciei no dia 30 de maio de 2016 o meu ciclo de treinamento para competir no primeiro Desafio Samurai da Mizuno Uphill Marathon 2016. O desafio era correr 25km subindo a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, às 7h, e, às 15h, correr 42,2km subindo novamente a mesma serra. O tempo das duas provas seria somado, e o campeão seria quem corresse em menor tempo a distância total de 67km. Quem completasse os 67km acima de 6h não receberia a medalha de samurai. Resumindo tudo: o treino demorou para encaixar, reiniciei a dieta low carb, sofri igual um burro velho para subir e descer os morros durante os treinos.

Aquilo era tanto fisicamente quanto mentalmente muito desgastante. Voltei a realizar os exercícios mentais, com isso comecei a enxergar cada treino como uma oportunidade para evoluir e não mais como uma penitência a cumprir. Se eu quisesse algo muito grande, teria que fazer um esforço muito grande a cada treino, com concentração e foco.

isbin_3
Cléber Isbin no alto do pódio do Desafio Samurai 2015, com Gabriel Picarelli em segundo e Fernando Silva em terceiro

Emagreci 10kg durante os 3 meses de preparação, e, ao final do ciclo de preparação, uma frase tomou conta da minha mente: “Alguém poderia ter treinado tanto quanto que eu, porém, ninguém havia treinado mais do que eu”

Meu mestre e treinador Wanderlei Oliveira me enviou a seguinte mensagem na véspera:
“ Boa prova. Acredite no seu sucesso!”

Naquele momento, sem contar para ninguém, eu comecei a acreditar… Larguei para os 25km e a prova estava redonda conforme o planejado, mas vieram câimbras nas panturrilhas. Eu estava no pé da serra e pensei que a minha prova iria terminar. A dor era tão grande que parecia uma lesão séria. Diminui muito o ritmo naquele km e com a grande inclinação da serra já iniciada, a minha biomecânica de corrida mudou naturalmente, aliviando o esforço nos músculos doloridos das duas panturrilhas. Apertei o passo na subida e cheguei com 1h54m. Fui direto fazer massagem e colocar gelo.

Às 15h estava pronto para a maratona. Sai tranquilo em um ritmo bem prudente, acompanhando três admirados corredores no bloco, Roberto Dum Tadao, Sandro Ottoboni e Elenilton Rangel.

Como a minha dieta é low carb, não tenho hábito de consumir carboidratos, nem mesmo no treino longo de 40km que realizei na semana de pico de treinamento, que chegou a 150km semanais.

isbin_2
Cléber Isbin na chegada dos 25km da Mizuno Uphill Marathon

Ao passar pela meia maratona, eu tomei um gel e me senti confiante para atacar a prova. Eu esqueci de todas as dores do meu corpo após focar em meu ritmo. Naquele momento eu abandonei o bloco e segui sozinho.
Passei por 6 corredores na parte mais difícil da prova, a serra, é claro! Não andei nenhuma vez nas duas provas (fazia parte da estratégia).

Cruzei a linha de chegada da maratona em terceiro lugar no geral e 10 minutos após veio a confirmação de que eu era o primeiro campeão do Desafio Samurai da Mizuno Uphill, com  1h53m54s nos 25km e 3h30m05s nos 42km, somando 5h23m59s – o segundo colocado foi Gabriel Picarelli, que nos 25km fez 1h52m59s  e, nos 42km, 3h40m25s, totalizando 5h33m24s. O terceiro foi Fernando Silva, campeão nos 25km, com  1h46m35s, e com 3h48m05s  nos 42km, fechando o desafio em 5h34m40s.

Naquele momento foi impossível não me lembrar da merda de lugar de onde eu vim, no submundo das drogas e onde Deus me colocou naquele momento: ao lado de pessoas extraordinárias em minha vida, como a minha esposa Beatriz, que me entende e me ama da maneira como eu realmente sou. Está realmente valendo a pena ficar limpo através do esporte.”

Cléber Isbin