Espaço do atleta: A experiência marcada na pele de Milton Cezimbra na Mizuno Uphill Marathon

A primeira vez que soube da Mizuno Uphill Marathon foi em 2015. Uma amiga enviou para mim e para minha esposa uma foto da Serra do Rio do Rastro e comentou a respeito da prova. Na época simplesmente achamos insano, porém algo distante: tínhamos acabado de fazer nossa primeira maratona no Rio de Janeiro e vimos que não é algo tão simples assim de encarar. E eis que, quando abrem as pré-inscrições para 2016, a distância de 25km é apresentada pela primeira vez. Aí nem pensamos: é a chance de encarar um lugar lindo em uma distância moderada para ver o tamanho do problema.

Em 2016, fiz a Maratona do Rio, a de Berlim, quase 1 mês depois da Uphill, e os 25km da Uphill propriamente dita. E diria que, das 3 provas, a mais sofrida foi a Uphill: a distância menor esconde uma prova dura, que pede estratégia e cabeça, pois 25km com aquela altimetria é fogo; nunca tinha feito tanta conta na vida para não estourar o tempo. Consegui completar a prova, e, no percurso, quando estava junto com minha esposa no meio da Serra, comentei: vamos voltar ano que vem para os 42km? Momentos depois completava a prova mais dura e que mais cobrou da minha cabeça, com a certeza de que tinha sido uma experiência fantástica, motivo da tatuagem na panturrilha com a Serra e a medalha da prova. Mas a tatuagem não estava completa e estava decidido: faltavam 17km e a medalha de 42km.

Voltando de Berlim, estava certo de embarcar em ultramaratona, trail e tal. Não sou um corredor veloz e, tampouco, exímio em subida. Tenho resistência e teimosia, e gosto de provas que exigem planejamento. Portanto, maratona é um sofrimento divertido. Fiz a pré-inscrição para o sorteio, não fui sorteado e não pensei 2 vezes: entrei pela inscrição de caridade.

No ano seguinte, principais provas marcadas para ganhar resistência, com foco em trilhas e subidas, além de longos em trilha e com subidas pela Vista Chinesa e Mesa do Imperador, “passeios” pelas Paineiras, Floresta da Tijuca, Estrada das Canoas e por aí vai… Nem sempre foi divertido, nem sempre foi fácil treinar. Muitas vezes treinando com amigos que me davam força e me puxavam. Algumas vezes sozinho, aprendendo cada vez mais a conviver comigo mesmo por longos períodos de treino e silêncio.

Milton Cezimbra em uma das 258 curvas da Serra do Rio do Rastro
Milton Cezimbra em uma das 258 curvas da Serra do Rio do Rastro

Chegado o grande dia (2/9), nunca fiquei tão tenso para uma prova; nem a ultramaratona que fiz 1 mês antes me deixou apreensivo daquele jeito. Aquele tempo limite de 6h, com o reloginho que me esperava faltando 18km não saiam da minha cabeça. Eu transitava entre o tranquilo e o tenso com a mesma frequência com que encontrava as curvas na subida da Serra. Quando entramos no meio da galera para correr, lembro do treinador Roberto Tadao me dizendo “não importa o que aconteça, não para”. Tambores batidos, Metallica na caixa de som, chorei um pouco e fui.

Ao longo dos primeiros 10km foi briga com a cabeça, enquanto o esforço que fazia era administrado para não minar demais as pernas, sempre fazendo contas. Depois, com as descidas, aproveitei para soltar sem cansar demais. Passar no corte nos 24km, que teria que ser feito em menos de 3 horas, com 33 minutos de folga foi um alívio! A agonia do primeiro relógio passou, e a confiança foi aumentando… E depois fui reencontrar a Serra… Com o mantra na cabeça: “não importa o que aconteça, não para”.  E assim segui, curtindo a serra e pensando somente em chegar no alto.

O que antes era uma meta que na minha cabeça talvez não conseguisse se convertia em algo possível… O possível começou a se tornar algo dentro do melhor cenário na minha cabeça… E o que aconteceu foi melhor do que o esperado: consegui chegar no pórtico correndo com um tempo abaixo do previsto, bem, cansado e feliz, carregando comigo a certeza de que posso enfrentar desafios duros, mesmo que me deem medo. Reencontrar a certeza da minha capacidade de enfrentar estes desafios e sair com um sorriso no rosto não tem preço; viver a alegria de celebrar isso com amigos não tem preço.

Milton Cezimbra no pórtico de chegada da Mizuno Uphill Marathon
Milton Cezimbra no pórtico de chegada da Mizuno Uphill Marathon

Depois era só comemorar com minha esposa, que me esperava ali no pórtico e gritou na minha chegada, apostando que eu faria aquele tempo. Comemorar com o Roberto Tadao e mostrar, feliz da vida, a medalha que ele me ajudou a conquistar. Compartilhar com os amigos da Rio Saúde, que me acompanharam nos treinos e torceram por mim, além de outros amigos, corredores ou não, que também torceram. Só tenho a agradecer a Deus por esta oportunidade única, que não foi somente mais uma corrida; foi uma experiência de vida para guardar e relembrar, além de agradecer à minha esposa Adriana, que me apoiou e aturou, aos amigos da Rio Saúde e ao Roberto Tadao, que me ajudou a estar melhor preparado para este desafio.

E a tatuagem, agora completa, será um eterno lembrete que carrego comigo desta experiência e do que ela me proporcionou. Porque não foi só mais uma corrida.

A tatuagem completa da Mizuno Uphill Marathon de Milton Cezimbra
A tatuagem completa da Mizuno Uphill Marathon de Milton Cezimbra

O que virá depois? Bom, estou aqui pensando na pré-inscrição de 2018…

Milton Cezimbra

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