Espaço do atleta: Os 21km de Manuel Sant Anna na paradisíaca ilha de Fernando de Noronha

Em minha vida, existem duas coisas que faço bastante, e que gosto: viajar e correr. As viagens são por conta de meu ofício, comissário de bordo na Gol. As corridas, eu passei a praticar com seriedade a partir de 2013, com a influência e estímulo de meu irmão mais velho, André Sant Anna, e amigos. Por isso, no imaginário de “provas a fazer, ao menos uma vez na vida”, os 21k de Noronha naturalmente estavam inclusos. Tive o privilégio de conhecer a ilha, em 2016; voltar para fazer uma meia-maratona, com um cenário tão deslumbrante, era mais um sonho que não saía da cabeça.

A oportunidade veio esse ano. Minha empresa era uma das patrocinadoras. Em um sorteio interno entre funcionários, fui contemplado com a inscrição, que não é nada barata (R$ 650). Talvez devido à dificuldade com a logística. Afinal, é um lugar distante,  cerca de 300 km da costa brasileira.

Embarquei no dia anterior ao da prova. Mesmo se tratando de um destino turístico tão
desejado, praticamente todos os passageiros estavam ali para participar do evento. A
comandante e o chefe de cabine do voo, nas alocuções de boas-vindas após o pouso,
felicitaram a todos e desejaram boa sorte. O avião aplaudiu. Fernando de Noronha vivia
o clima da corrida.

No Museu do Tubarão, após pegar o kit, fui assistir o simpósio técnico. O organizador falou as informações de praxe, as quais já tinha uma leve noção, como por exemplo, sobre o percurso. Mas dois detalhes me chamaram a atenção: uma era a preocupação com o meio ambiente, que achei muito legal. A consciência no descarte dos copos de água e pacotes de suplementos era uma constante, coisa que infelizmente não vejo nas atuais provas de rua, seja aonde for. Afinal, trata-se de uma área de preservação ambiental, sem tantos recursos e facilidades como nos demais centros urbanos. A outra foi uma ducha de água fria: questionado sobre tempo e pace, disse que o vencedor da última prova completou em 1h39m. Levando em conta que os atletas profissionais fazem em cerca de uma hora e eu, uma pessoa “normal”, costumo fazer em pouco abaixo de duas horas, comecei a ter noção do desafio que encararia. Desencanei do tempo. E, seguindo o conselho e a experiência de meu irmão mais velho, comecei também a trabalhar a ideia de aproveitar o momento e relaxar.

Chega o grande dia. Ansiedade natural. Concentração no Porto às 6h e largada às
7h. Adrenalina a mil após a buzina. Iniciamos na BR 363 (a menor rodovia federal do Brasil, que liga justamente esse Porto à Baía do Sueste). Logo de início, um trecho de subida, de cerca de 1km. Até a Vila do Boldró, mais uma longa subida. Sigo firme, mas tentando controlar o pace. No Km 7, a novidade para mim: trecho de trilha, que leva até o Mirante do Leão. A ladeira de terra batida, com os pedregulhos, desníveis e alguns trechos íngremes, além da mata ao redor, impressionam. A novidade assusta. O sol já estava absurdamente forte, castigando a todos. São cerca de 2 km. Confesso que nessa hora, quebrei. A decepção dá lugar ao deslumbramento do lugar. Passei a me preocupar em me divertir, parando para registrar as diversas paisagens.

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Sigo adiante, encarando mais trechos de terra batida e pouquíssimo asfalto, desbravando a ilha. No Km 14, mais um novo desafio. Trecho de areia. O visual para compensar é um prêmio. A famosa Praia da Cacimba do Padre, com o Morro Dois Irmãos ao fundo, talvez o principal cartão postal de Fernando de Noronha. Nessa hora me emocionei.

Vou seguindo para a etapa final, a mais complicada. A também conhecida Praia da Conceição, com o icônico Morro do Pico, que pode ser visto praticamente de todo lugar da ilha, ao fundo. A areia bem fofa e a água do mar deixam o tênis bem pesado, dificultando ainda mais a passada. Passo pelo Centro Histórico, na Vila dos Remédios (embora todo o lugar seja história pura), pegando mais duas trilhas com ladeiras bem longas e íngremes. Enfim, de volta à BR 363, voltando à chegada, também no Porto. Para aliviar um pouco o trecho agora é como uma longa descida. Mesmo com o grande desgaste físico, o sprint final para, finalmente, com um grande sorriso no rosto,
vencer a Meia.

Terminei a prova com um tempo líquido de 2h34m24s, o que me deixou na posição número 41 em minha categoria (30 a 39 anos), posição 101 entre os homens e 157 no geral, entre os 430 corredores que completaram. Ritmo de 7m25s por km. Foi o pior tempo de minhas quatro meias maratonas que fiz até o momento. Mas, levando-se em conta que trata-se de uma corrida atípica, fiquei feliz em ter completado.

Por fim, a confraternização com amigos feitos naquele instante. Afinal não dá para não fazer amizades, tanto em Fernando de Noronha como fazendo corridas. E já imaginando estar de novo no paraíso final do ano que vem. Para correr, já que para passear o desejo é voltar o quanto antes.

Manuel Sant Anna
Comissário de bordo e corredor amador

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