Projeto resgata imagens inéditas do primeiro Brasil campeão do mundo

Por Rodolfo Lucena, do Tutaméia

Na verdade, na verdade, Moacir parece querer mostrar coragem, dar a entender que não está nem aí. Os olhos não pedem ajuda nem tampouco estão risonhos: focam o infinito, tentando dominar o rosto, no estilo cara de paisagem ou fisionomia gelada de veterano jogador de pôquer. A boca, porém, desmonta a tentativa. Aberta, esbugalhada, oferece os dentes muito brancos para a ação profissional do dentista Mário Trigo que, com os dedos, ainda expande mais a abertura para poder melhor avaliar o território de seu trabalho.

A cena se deu em um consultório dentário montado especialmente para atender os jogadores escolhidos para participar da seleção brasileira que iria disputar a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. O escrete nacional ficou hospedado em Poços de Caldas, onde teve o mais moderno acompanhamento médico e preparação física dos melhores padrões da ápoca.

O meia Moacir Claudino Pinto talvez não esteja na memória mesmo dos mais aficionados torcedores. Reserva de Didi, não chegou a entrar em campo na Suécia. Sua imagem é resgatada agora no projeto de publicação de um livro com fotos especialíssimas, “de cocheira”, retratando a vida dos atletas da seleção Brasileira na concentração prévia à viagem para a Europa.

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Os cliques são do premiado fotógrafo Antonio Lucio (1930-2000), que cobriu a seleção para “O Estado de S. Paulo”. Esquecidos no tempo, os negativos foram encontrados pela filha de Lucio, a jornalista Silvia Herrera, que agora está levantando fundos pela internet para produzir o livro “A Seleção Nunca Vista”.

Conversei com ela, por e-mail, sobre o trabalho do pai e sobre seu projeto. Acompanhe a seguir a entrevista:

RODOLFO LUCENA – QUEM FOI ANTONIO LUCIO?

SILVIA HERRERA – Antonio Lucio (1930-2000) é filho de imigrantes italianos, que vieram trabalhar nas fazendas de café do Espírito Santo do Pinhal (SP). Perdeu o pai aos 14 anos. A família se mudou em seguida para São Paulo, e ele começou a trabalhar para ajudar em casa.

Conseguiu uma vaga de contínuo no jornal “Notícias de Hoje” e aprendeu a profissão de fotógrafo com os profissionais de lá. Dois anos depois participou de um concurso fotográfico. Venceu! A foto feita com uma câmera emprestada, rendeu 300 mil réis e abriu várias portas.

Com faro apurado para notícia, Lucio lapidou seu talento nas ruas, trabalhando como repórter-fotográfico nas redações de “A Hora”, “O Esporte”, “Diários Associados”, “O Cruzeiro” (revista), “Manchete” (revista) e “O Estado de S. Paulo”. Foi também fotógrafo do Governo de São Paulo (Palácio dos Bandeirantes) e da Secretaria Estadual de Esportes e Turismo (SP). Fez parte da equipe pioneira do Zoo de São Paulo. Era responsável pelo registro e planejamento do uso de imagens.

É dele o primeiro furo internacional de um jornalista brasileiro. Em 1961, Lucio localizou o paradeiro do transatlântico português Santa Maria, que fora sequestrado por um grupo de militares contrários à ditadura de Salazar, em Portugal. São dele os primeiros registros a bordo, feito destacado em todo o mundo e que lhe rendeu seu segundo Prêmio Esso, no ano seguinte. O primeiro fora pela cobertura da inauguração de Brasília, em reportagem também publicada em “O Estado de S. Paulo”.

RODOLFO LUCENA – O QUE É O PROJETO “SELEÇÃO NUNCA VISTA”?

SILVIA HERRERA – É o projeto para arrecadação de recursos para a publicação do livro “Seleção Nunca Vista”. A publicação foca a primeira concentração tida como séria da seleção brasileira de futebol, em abril de 1958, na cidade mineira de Poços de Caldas. O elenco contou com inédito acompanhamento odontológico, psicológico, além de uma preparação física bem moderna para os padrões da época.

O fotógrafo Antonio Lucio registrou esse momento decisivo para o sucesso da equipe brasileira na Copa da Suécia. Os negativos permaneceram escondidos numa bagunça de fotos e negativos e foram encontrados por mim recentemente. Digitalizei os negativos e fiz dois contatos, que levei para o jornalista esportivo Antero Greco analisar.

Ele ficou surpreso, disse que era um tesouro da história do nosso esporte, e aceitou escrever legendas para aquelas fotos raras se transformarem em um livro.

Depois de inúmeras e infrutíferas reuniões com potenciais patrocinadores, optei pelo crowdfunding para a concretização deste projeto. A campanha para o financiamento compartilhado para a publicação do livro “Seleção Nunca Vista” vai até 30 de março. Para a publicação do livro é preciso R$ 15 mil no total. Se a meta não for atingida, os apoiadores são reembolsados (interessados em apoiar o projeto CLIQUEM AQUI).

RODOLFO LUCENA – COMO VOCÊ DESCOBRIU OS ORIGINAIS? HÁ MAIS?

SILVIA HERRERA – Certa manhã, enquanto pedalava até meu trabalho, me veio a lembrança desse episódio, como se meu pai estivesse me lembrando disso e avisando onde estavam os negativos. Quando cheguei em casa fui procurar na bagunça de negativos, numa caixa de madeira. Encontrei separados em dois envelopes azuis. Acreditei que fossem esse pois visualizei o Pelé, ainda menino com 17 anos. Mandei digitalizar os negativos. São 73 fotos, depois encontrei algumas fotos em preto e branco dessa mesma concentração.

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RODOLFO LUCENA – AS FOTOS SÃO INÉDITAS? NÃO FORAM PUBLICADAS NA ÉPOCA?

SILVIA HERRERA – Boa parte das fotos é inédita. Os closes dos jogadores foram usados para fazer a escalação, com recortes nos rostos. E duas das fotos dos jogos também foram publicadas.

RODOLFO LUCENA – O TÍTULO DO PROJETO É “SELEÇÃO NUNCA VISTA”. NÃO HAVIA OUTROS FOTÓGRAFOS ACOMPANHANDO OS BASTIDORES DA SELEÇÃO? COMO JUSTIFICA ESSE TÍTULO?

SILVIA HERRERA – Ele era o único hospedado junto com a seleção no Palace Hotel. Antero e eu pensamos em vários nomes, de Ginga a Esquadrão de Ouro. A ideia do título foi uma sugestão de Alessandra Galvão, que trabalha na Gerência de Desenvolvimento Físico e Esportivo do Sesc São Paulo, durante uma reunião na qual apresentei o projeto. Ela argumentou que, como essa micro-história é de antes da Internet, as novas gerações desconhecem esse episódio e apenas um público restrito, que hoje está na faixa dos 80 – 90 anos, assistiu aos jogos em Poços de Caldas. Acatei a sugestão.

RODOLFO LUCENA – COMO SERÁ O LIVRO? QUANDO SAI?

SILVIA HERRERA – O livro será editado em capa dura, tamanho 21×21 cm, papel IOR 170g, esse tipo de papel é quase um couchê, só que um pouco mais poroso, tiragem de três mil exemplares. As fotos serão do tamanho da página, e as legendas na página ao lado. A previsão de lançamento é em julho, mas ainda não temos a data. Torço para que seja dia 7 de julho, data do meu aniversário, e durante a Copa da Rússia.

Os textos são de Antero Greco, que é jornalista esportivo. Foi por décadas editor de esportes do Estadão e cobriu todas as Copas do Mundo de Futebol desde 1978, além de outros certames internacionais como Copa América de Seleções, Copa Libertadores da América e Copa das Confederações.

Neste livro, além da apresentação e das legendas, Antero faz um resumo do que foi a Copa da Suécia e dá a ficha técnica de todos os jogos do Brasil nessa competição. Há também depoimentos de Pepe e Djalma Santos.

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