Para chamar atenção para a epilepsia, americano quer ser recordista mundial na Maratona de Boston, mas correndo de costas

Se você estiver em Boston no dia 16 de abril, participando ou assistindo à Maratona,  e vir um cara correndo de costas, não grite “Você está no sentido errado”. Incentive Loren Zitomersky. Sua presença na mais antiga prova de 42km do mundo, que chega a sua 122ª edição, terá um nobre propósito. Como “Seu Boneco”, personagem da “Escolinha do Professor Raimundo”, Loren largará “dis costa” para tentar ser o maratonista mais rápido do mundo. Ele quer superar o chinês Xu Zhenjun, que, na Maratona de Pequim de 2004, marcou 3h43m39s, feito registrado no Guinness World Records. Mas não é só isso.

A motivação em correr os 42km de costas é seu irmão mais velho, que, em 1977, aos 7 anos, morreu durante o sono após uma série de convulsões causadas pela epilepsia. Sem ter conhecido Brian, filho do primeiro casamento de seu pai, Steve Sitomer, Loren, de 33 anos, quer arrecadar fundos para pesquisas e conscientizar a sociedade sobre a doença. “Há um estigma com epilepsia”, afirma ele, advogado de produções de filmes da Disney. “Convulsões são assustadoras. Quando as pessoas não conseguem controlar sua mente, é assustador. E as pessoas não falam sobre isso. Elas têm medo. Não é como câncer e outros distúrbios que as pessoas falam. Eu tive pessoas na Disney que se aproximaram e me contaram sobre membros da família ou amigos próximos que tiveram epilepsia e sua história. Elas se abriram para mim. Eu realmente estou fazendo algo para essa comunidade carente e sem dinheiro”.

Loren quer retribuir a solidariedade que seu pai recebeu. “Ele encontrou muita ajuda e consolo em grupos de apoio à epilepsia. Queremos retribuir esse carinho”. afirma ele. “Para muitas pessoas, ter epilepsia é como passar andando para trás. As convulsões podem surgir do nada. E o que estou fazendo, ao correr de costas, é chamar a atenção para as lutas pelas quais essas pessoas passam. A única diferença é que minha luta é temporária”.

Conhecido nas redes sociais como Backwards Guy,  Loren começou a campanha para arrecadar fundos para pesquisas com o pai quando tinha 12 anos. De bicicleta, os dois pedalaram os 614km que separam San Francisco. Nesses 21 anos de campanha, foram levantados mais de US$ 300 mil e seu objetivo é conseguir, somente neste desafio, outros US$ 100 mil. Até hoje, já foram angariados US$ 56 mil. “A primeira ação que pai e eu fizemos foi em 1997″, disse ele. “Acabamos fazendo 10 passeios de bicicleta ao longo dos anos. Depois disso, comecei a fazer maratonas”.

A decisão de correr de costas em Boston surgiu após muito pensar em como fazer algo impactante. “Eu estava queimando meu cérebro tentando descobrir o que fazer para Boston. Alguém jogou uma ideia: que tal um recorde mundial? Abri o Guinness Book, mas a maioria dos recordes existentes, como ser o maratonistas mais rápido vestido de palhaço, esse tipo de coisas, não me entusiasmaram. Procurava algo que fosse impactante . Até que descobri o recorde de Xu Zhenjun”, conta Loren, que terá que correr a um ritmo de 5m16s/km para ser o novo recordista.

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Loren Zitomersky treina na esteira para a Maratona de Boston. Crédito: Arquivo pessoal

Para o pai, o objetivo de Loren traz um pouco de conforto e inspiração para quem luta contra a epilepsia. “Eu acho que é a melhor coisa. Eu não poderia estar mais orgulhoso. Já é difícil correr uma maratona para frente, mas correndo para trás. . . Loren é uma pessoa com muita força de vontade.”

Em junho do ano passado, com o tempo de 3h00m14s, obtido na Mountains 2 Beach Marathon, na Califórnia, Loren conseguiu o índice para correr em Boston este ano. “Eu disse que, se  me qualificasse, faria algo realmente grande para arrecadar dinheiro para a End Epilepsy e conscientizar as pessoas sobre a epilepsia”, afirmou ele,  que tem sete maratonas e um Ironman no currículo.

Seu treinamento para fazer os 42km de costas começou em novembro, quando ele, lentamente, incorporou as corridas de costas.

“Foi muito difícil. Eu caí algumas vezes”, disse ele. “Quando se corre de costas, você usa músculos diferentes. Correr para frente pode sobrecarregar os joelhos e pode ser difícil de joelhos e para o posterior de coxa. Correr de costas é mais difícil, pois exige muito das panturrilhas e dos quadris. Você gasta 33% de energia a mais para correr assim”.

Para chegar em condições de bater o recorde em Boston, Loren terá treinado, segundo seu planejamento, mais de 724,2km, que o ajudou a dominar a técnica de correr de costas. “Quando comecei a treinar para correr desta maneira, foi muito difícil para o meu pescoço, porque estava olhando por cima do meu ombro, mas agora não tenho mais nenhuma dor”, disse ele, que, para ser preparar para Boston, terminou, de costas, duas corridas de 10km e, no mês passado, a Maratona de Los Angeles, fechando em 4h55m56s.

Em Boston, Loren terá seu amigo Jim Pobanzum correndo ao seu lado. “Ele será os meu olhos na parte de trás da minha cabeça e cuidará da minha hidratação nos postos. Nas corridas, Jim me diz ‘direita, direita, esquerda, esquerda’. Ele é muito cuidadoso e ciente de tudo que acontece ao nosso redor”, diz ele.

Loren diz que agora tem uma nova perspectiva da corrida. “É divertido correr de costas. Estou sempre cara a cara com centenas de pessoas e elas estão apenas olhando para mim. Quando você está correndo desta maneira, você enfrenta todo mundo cara a cara durante a corrida”, disse ele. “Recebi uma grande quantidade de apoio, mensagens e e-mails de pessoas me incentivando. De certa forma, eu sinto que Brian vive através deles. Estou fazendo isso pela memória de Brian, mas também por todas as pessoas que conheci. Isso me empurra”.

Ele conta que as reações das pessoas são as variadas ao verem correr de costas. “Muitas pessoas apenas olham para mim. Alguns ficam muito animados e correm de costas comigo por alguns passos. Uma mulher correu e depois me abraçou. As crianças adoram. Eu acho que a corrida de costas não é para todos. Mas recebo muitas mensagens de apoio de pessoas que sofrem de epilepsia”.

“Há um estigma com epilepsia”, disse ele. “Convulsões são assustadoras. Quando as pessoas não conseguem controlar sua mente, é assustador para as pessoas. E as pessoas não falam sobre isso. Não é como câncer e distúrbios que as pessoas falam. Na Disney, as pessoas se aproximavam para me contar sobre familiares ou amigos próximos que tiveram epilepsia e suas histórias, e eles se abriram para mim. Eu realmente estou fazendo algo para essa comunidade carente e subfinanciada. ”

Loren não tem certeza se vai conseguir bater o recorde. “É, literalmente, a coisa mais difícil que já fiz na minha vida. Eu não tenho 100% de certeza de que vou conseguir, mas vou dar tudo de mim. Eu vou ser um desastre, vou chorar, sorrir… Eu vou ser um meme”.

Para fazer doação para a campanha de Zitomersky, acesse o site BostonBackwards.com.

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