Zezé Nascimento

A paixão da Zezé pelo esporte inspirou a iniciativa mais autoral da minha carreira: o documentário Vida Corrida

Por Angélica Brum.

A Zezé Nascimento foi a pessoa mais competitiva que conheci. Eu, que fujo de disputas e procuro não saber dos meus adversários, estranhava quando ela me descrevia os feitos de suas concorrentes no universo das corridas de rua. Mais do que isso, sempre que teve oportunidade, ela fez questão de me apresentar a elas e também aos atletas do sexo masculino que ela admirava e, às vezes, deixava para trás em algumas provas. Ela era amiga e fã de amadores, que, como ela, ficam sempre por perto do pódio. Não resisto a compartilhar fotos com medalhas nas redes sociais, mas, na real, dou pouco importância aos resultados. Se não me engano, só me interessei em saber qual era meu ritmo depois da insistência dela: “linda, você tem que saber o seu pace.” Obediente, corri atrás.

Duas pessoas com relações tão distintas com a atividade física não poderiam ter se conhecido numa pista, nem mesmo numa esteira. Descobri a Zezé discreta, de jaleco branco impecável abaixo do joelho, e pérolas nas orelhas. Numa clínica dermatológica em que ela trabalhava como esteticista. Fui parar lá sem recomendação específica. Confiava no nome estrelado da médica que comandava a equipe. Bastou olhar aquela pele perfeita para ter a certeza de que estava no lugar certo. No fim da limpeza de pele, ela não me ofereceu procedimento, nem falou mal da minha pele. Só me deu um conselho: espaçar o intervalo entre um tratamento e outro. Pronto, uma profissional da beleza que manda a gente pegar leve, me ganhou.

Voltei mais umas duas ou três vezes. A sessão sempre seguia em tranquilidade. Aproveitava aquele ambiente insípido e inodoro e, acreditem, totalmente indolor para dormir. Como diz uma amiga que também virou cliente dela: a gente pode sair da limpeza de pele da Zezé direto para uma festa. Não havia como ficar com o rosto marcado. Aquela profissional competente reconhecia o próprio valor. Sempre no fim do tratamento, mostrava um espelho para gente e dizia que se sentia abençoada pelas mãos, de onde tirava o sustento.

Levou quase um ano para que eu soubesse que a Zezé também agradecia a Deus o talento de correr. E ela agradecia muito! Durante um bom tempo, nosso diálogo era bom dia, boa tarde, a temperatura do ar está boa, o que você vem usando no rosto etc. A prosa só tomou outro rumo quando cheguei lá com a camiseta de uma prova. Antes de começar a anamnese, ela quis saber seu eu corria. Acho que imaginei que a curiosidade estava ligada aos perigos da exposição ao sol e respondi. Não tinha a menor ideia de que no vocabulário dela a palavra “corrida” significava ultramaratonas em condições adversas. Enquanto eu, me sentia o máximo por fechar uma meia-maratona em menos de duas horas.

A partir desse dia, o ritual mudou. Depois de me mostrar no espelho o resultado da limpeza, a Zezé me contava dos treinos, das viagens programadas, das metas. Ouvia tudo abismada e me enrolava quando ela perguntava sobre planilhas, dietas ou metas. Invariavelmente, saia carregada de amostras de filtro solar. “Para você levar no bolso do short, linda”, recomendava.

Agora, ela cuidava de mim mais do que da minha pele. Uma lesão grave me afastou da corrida por mais de um ano. Ela não me deixou desanimar. Acompanhava o tratamento, passava contato de profissionais e apostava na minha recuperação. Eu, que pensava ter descoberto apenas uma ótima esteticista, havia encontrado uma técnica, uma nutricionista, uma motivação. Não se tratava de incentivo para vencer a preguiça que, há 20 anos, bate na hora de calçar o tênis. A paixão da Zezé pelo esporte inspirou a iniciativa mais autoral da minha carreira: o documentário Vida Corrida.

Ela me deu força para encarar o pitching, convidar o Rafael Norton para assinar o projeto comigo, enfim, a tocar a produção nas folgas da rotina na televisão. Durante o ano de gravações, nos aproximamos. Ela, pura empolgação. Tanta que, algumas vezes, confesso, me faltava paciência com o volume de mensagens e postagens nas redes sociais. Ela mantinha uma relação superlativa com o esporte. Não respeitava programa, não parava em equipe, treinava machucada, ou seja, cometia toda sorte de heresias diante do extenso código de prescrições do universo dos cuidados de si.

A Zezé só pensava em chegar na frente. E, claro, linda, como confessou no documentário. “Eu quero estar bonita no pódio.” E foi assim, toda linda, que a encontramos, antes das sete da manhã, depois de passar 24 horas, dando voltas numa pista de atletismo em plena Avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, aliás, ela reconheceu que havia exagerado. Mas, claro, estava feliz. “Isso é coisa de maluco”, ria.

Contrariada mesmo ela ficou quando não conseguiu completar os 42 km da Serra do Rio Rastro, em Santa Catarina. Era a segunda vez dela na Mizuno Up Hill. Além da expectativa de pódio na faixa etária havia a nossa presença, uma equipe pronta para registrar a conquista. Não flagramos a passagem dela pelo pórtico de chegada. Em compensação, na sala de recuperação, constatamos que, de fato, a gente acompanhava uma celebridade. Ao redor dela, atletas amadores dos mais cascudos perguntavam o que havia acontecido, ofereciam glicose, fruta, massagem ou cobertor.

Rafael Norton, Angélica Brum e Zezé Nascimento
Rafael Norton, Angélica Brum e Zezé Nascimento

Para ela, o erro estava na dieta. Se não me engano, chegou a comentar que deveria ter aumentado a dose de sal durante o trajeto. Mesmo assim, estava animada, posando pra fotos – o que adorava fazer, me apresentado aos colegas. E ainda cochichou no meu ouvido: “linda, trouxe você para um lugar cheio de homem bonito. Que benção, né?”

O êxito em tantas outras provas, não bastava. Diversas vezes, repetiu para mim que “aquela montanha”, a Serra do Rio do Rastro, a desafiava. Tenho a impressão que, fora das pistas, ela encarava desafios correndo também. Assim, levava o almoço para o pai que trabalhava na roça, em Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo. “Quando chegava, ele me chamava de campeã. De todos os filhos, eu era sempre escolhida porque vivia correndo.”

A gente só não esperava que ela fosse nos deixar de forma tão veloz. Nunca se espera. Da última vez em que nos vimos, soube que planejava para 2019 enfrentar, novamente, os 89 quilômetros da Comrades, na África do Sul. “Os últimos anos foram difíceis, fiz provas sem treinar direito. Precisava me concentrar na estética, procurar outras clínicas. A crise chegou para todo mundo, linda.” Ela sabia que eu entendia a dimensão do problema.

Menos de dois meses depois do lançamento do nosso documentário, fui demitida. Assim que anunciei nas redes sociais, ela me procurou. Queria marcar um café. Na verdade, o café era uma limpeza de pele “de presente” para que eu me sentisse bem. A partir daí, não passavam duas semanas sem que ela me mandasse um alô. Também recebia mensagens de áudio da secretária dizendo que a “a Zezé quer que a senhora marque uma hora.” Eu insistia que só topava agendar um café. Aí, ela gravava dizendo que queria me ver, que gostava de me receber e me dar um tratamento de presente.

Aceitei a gentileza algumas vezes. Enquanto a gente conversava, a Zezé se preocupava em me confortar lembrando que tudo ia ficar bem, que eu precisava ter confiança e coragem. Eu agradecia comovida, a gente se abraçava, ela abria a janela, me mostrava a vista do consultório e dizia, mais uma vez, que, apesar de tudo, sempre havia motivos para agradecer.

E, hoje, se ainda me faltam coragem e confiança, eu agradeço o dia em que vesti uma camiseta de corrida para fazer uma limpeza de pele e conheci uma campeã.

6 comentários

  1. Oi,
    Aqui é a Julia, filha da zeze. Não tinha parada para ler nenhuma homenagem a ela ainda, pois não queria me emocionar por enquanto mas essa… não pude deixar de ver… e te agradeço por ter me dado o presente te ouvi-la novamente. Obrigada!

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